A volta de Thoreau, o escritor que influenciou Gandhi, Tolstói e Sean Penn

Após a experiência traumática da pandemia da Covid-19, que fez as pessoas ressignificarem várias de suas escolhas e pôs em dúvida nosso ideal de felicidade, uma nova edição de Walden ou a vida nos bosques, do norte-americano Henry David Thoreau, vem bem a calhar.

O livro publicado em 1854 é, claro, um manifesto a favor da natureza e da liberdade. Mas é principalmente uma provocação às nossas “certezas”. Thoreau e seus escritos são a mosca que incessantemente continua a zumbizar em nossos ouvidos.

Mas por que esse escritor, que fez a cabeça de Tolstói, Gandhi, Marthin Luther King, os autores da beat generation e os hippies, continua a ecoar em um mundo dominado pela vida “moderna” e pelo capitalismo selvagem?

A história de Thoreau se confunde com sua obra, como se ele mesmo fosse a própria cobaia de suas ideias. Ele nasceu em Concord, Massachusetts, em 12 de julho de 1817. Criado em uma família de protestantes franceses, formou-se em Literatura Clássica e Línguas, na universidade de Harvard, em 1837.

Em seguida, voltou para Concord, onde iniciou uma longa e íntima amizade com o escritor Ralph Waldo Emerson. Nessa época, entrou em contato com alguns pensadores transcendentalistas. Até que, em 1845, se estabeleceu em uma pequena cabana que ele mesmo construiu às margens do lago Walden, onde passou dois anos, com o objetivo de simplificar sua vida e se dedicar à contemplação da natureza e escrever suas reflexões.

Henry David Thoreau, autor de Walden ou a vida nos bosques.

A obra de Thoreau

É aí que surgem os textos reunidos na presente edição de Walden. São reflexões que passam por vários aspectos da vida “moderna”, como “economia” e “vizinhos brutos”, e da vida alternativa que o autor tanto defendia, como “solidão”, “lagos” e “animais”.

“Quando escrevi estas páginas — ou, na verdade, o grosso delas —, eu vivia sozinho, na mata, a mais de um quilômetro e meio de qualquer vizinho, em uma casa que eu mesmo construí às margens do lago Walden, em Concord, Massachusetts, e ganhava a vida apenas com o trabalho de minhas mãos. Morei lá por dois anos e dois meses”, inicia o relato do autor.

Logo em seguida, Thoreau começa a mostrar sua verve de crítico voraz do ideal americano de viver para o trabalho e para o consumo. Em um dos capítulos, chamado “Economia”, ele é mordaz:

“Vejo homens jovens, cidadãos de minha cidade, cujo infortúnio é ter herdado fazendas, casas, celeiros, gado e ferramentas de agricultura — pois é mais fácil adquirir essas coisas que se livrar delas”, diz.

“Seria melhor que tivessem nascido no pasto aberto e sido amamentados por uma loba, para que pudessem ver com mais clareza o campo ao qual eram chamados a labutar. Quem os tornou servos do solo? Por que deveriam comer seus sessenta acres, quando o homem é condenado a comer apenas seu bocado de terra? Por que deveriam passar a cavar sua cova assim que nascem?”

Esse era o cerne de seu pensamento, de que só uma volta à natureza poderia reconectar o homem com sua essência e então chegar mais próximo do ideal de felicidade.

Frases

  • “Em vez de amor, de dinheiro, de fama, dê-me a verdade.”
  • “Como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade.”
  • “A riqueza de um homem só é proporcional às coisas que ele pode se dar ao luxo de deixar em paz.”
Cena do filme Na natureza selvagem, dirigido por Sean Penn.

Influência

Em 2008, o ator e diretor Sean Penn fez uma adaptação cinematográfica bem-sucedida do livro de não ficção Na natureza selvagem, do escritor e montanhista Jon Krakauer. O filme virou uma espécie de novo clássico ao refazer a trajetória de Chris McCandless, um rapaz de família rica do Leste americano que largou tudo, se internou sozinho na aridez gelada e morreu de inanição no Alasca.

Durante o filme, um livro de Thoreau aparece nas mãos de Chris. Mas, além deste fato, é bastante clara a referência à obra do escritor americano nos atos do personagem.

A edição de Walden da editora Planeta é ainda acrescida por dois textos de dão a noção de o quão influente Thoreau e sua obra foram e são. Na introdução do livro, Joyce Carol Oates, uma das mais prestigiadas autoras americanas, revela como foi impactada pela leitura de Walden aos 15 anos e nunca mais “se recuperou”.

Citando diversos outros textos clássicos que ajudaram em sua formação, ela diz: “Em meio a tantas leituras, é do Walden de minha adolescência que me lembro mais vividamente”. É por esse tipo de coisa que alguns livros são chamados de clássicos — eles simplesmente não são esquecidos.

O outro texto é assinado por ninguém menos que Virginia Woolf, a mulher que ajudou a implodir o romance do século 19 no século 20. Escrevendo para o suplemento literário do Times por conta do centenário de nascimento de Thoreau, comemorado em 1917, ela diz: “Ele abre seu caminho pela vida como se ninguém jamais tivesse tomado aquela rota antes, deixando esses sinais para os que vem depois…”.

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Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau
Trad.: Marina Della Valle
Planeta
319 págs.