A vitória dos booktubers

Quando surgiram, os booktubers poderiam ser comparados aos best-sellers. Ou, para usar uma metáfora do cinema, eram como verdadeiros blockbusters, arrasando quarteirões de leitores no YouTube. Mas a novidade trouxe reações. E logo os jovens que falam de livros na internet foram bombardeados com as mais variadas críticas: de falta de conteúdo a “jabazeiros” (que cobram para falar sobre uma obra). As discussões foram acaloradas, com alguns defendendo e outros criticando os novos comentaristas de livro e literatura.

Passado o olho do furação, os booktubers mostraram que vieram para ficar. Desde 2013 no YouTube com o canal que leva seu nome, a catarinense Bel Rodrigues tem hoje mais de 880 mil inscritos e seus vídeos ultrapassaram 52 milhões de visualizações.

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Bel Rodrigues: “Pauto meus vídeos de acordo com o que sinto vontade de ler no momento”.

Ela fala essencialmente sobre livros de não ficção, thrillers, suspense psicológico e literatura policial, além de fazer comparações entre filmes e livros. Sempre com um jeito descontraído, que é a abordagem mais corriqueira utilizada por booktubers como Bel.

“Pauto meus vídeos de acordo com o que sinto vontade de ler no momento. O que não me impede de ler um livro contemporâneo, jovem adulto ou romance vez ou outra. Também leio bastante poesia. E os vídeos são consequência disso”, diz.

Parceria com editoras

Apesar de deixar clara a independência de suas escolhas, Bel também não vê problema em fazer parcerias com editoras para divulgar determinados livros e autores. Atualmente, mantém um acordo com a Harper Collins, “pois criei um clube do livro para ler as obras da Agatha Christie e a editora está comigo desde o início do projeto. Tem sido incrível”, diz.

Na gíria da internet, isso se chama “publieditorial”, ou seja, uma marca (neste caso editora) paga para o dono do canal divulgar seu produto. “Com as várias outras editoras, fecho trabalhos pontuais”, diz Bel. “Acontece bastante de me procurarem para divulgar um livro (geralmente nos meus gêneros favoritos) e aí alinhamos as ideias e fechamos a parceria. Mas, por exemplo, se fecho parceria e acabo não gostando da leitura, eu obviamente não a divulgo.”

Paola Alexsandra criou o Livros & Fuxicos em 2011, na época como blog literário. Sua história é parecida com a de diversos outros booktubers: começou a falar sobre livros porque não tinha com quem compartilhar as leituras de que tanto gostava. “Sempre gostei de escrever sobre minhas leituras e de falar do poder transformador da leitura”, diz. “Com o crescimento do Livros & Fuxicos meu objetivo maior virou disseminar a literatura e apresentar os livros como uma forma leve e gostosa de entretenimento.” Hoje o canal conta com 300 mil inscritos e virou um negócio para Paola, que vive em Maringá, no interior do Paraná.

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Paola Alexsandra: “Meu objetivo maior virou disseminar a literatura e apresentar os livros como uma forma leve e gostosa de entretenimento”.

Novos tempos, novas análises

Tanto Paola quanto Bel parecem ser bem resolvidas com a condição de booktubers — e não de especialistas em literatura. A resposta é a mesma quando perguntadas se o que fazem é crítica literária ou algo próximo a isso. “Booktuber é o título dado para os youtubers que falam de livros. Ou seja, são pessoas comuns compartilhando suas experiências literárias dentro de uma rede social”, diz Paola.

“Essa discussão foi levantada há uns anos e só mostrou como muita gente do mercado ainda tem aquela veia elitista de tornar o livro um objeto sagrado e de difícil acesso, o que é uma besteira sem tamanho”, completa Bel Rodrigues.

O jornalista Yuri Al’Hanati é o criador do canal Livrada!, que tem uma “linha editorial” um pouco diferente dos canais de Bel e Paola. Seus vídeos costumam focar na literatura contemporânea, brasileira e estrangeira, além de falar bastante de obras de escritores russos do século 19.

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Yuri Al’Hanati: “Uma abordagem mais leve para falar da literatura que eu considero boa”.

O canal começou em 2014 por sugestão de uma amiga de Al’Hanati. Ele já mantinha um blog com o mesmo nome desde 2010 e, a partir de 2015, deu prioridade aos vídeos, que alavancaram a audiência do Livrada!. “A ideia com o canal foi estender a proposta do blog: uma abordagem mais leve para falar da literatura que eu considero boa.”

Para o jornalista, a crítica de livros precisa ser “ressignificada” a partir das novas plataformas de informação. Por isso, ele não vê problema em uma editora encomendar uma resenha sobre um determinado livro. “Também fazemos resenhas pagas ou lives esporadicamente, sempre a pedido das editoras — nunca do autor”, diz o booktuber.

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Um jeito de descomplicar a leitura

Apesar das diferenças de abordagens, Bel, Paola e Al’Hanati veem nos canais sobre livros, além de um negócio, uma forma de descomplicar um assunto — a leitura — que costuma ser uma “pedra no sapato” do brasileiro. “O papel mais importante do booktuber é disseminar literatura dentro de uma das maiores plataformas de entretenimento do mundo”, diz Paola.

E, nesse sentido, parece haver uma sinergia entre o que o público quer e aquilo que o booktuber entrega. “Costumam comentar bastante sobre a postura franca que mantenho diante dos livros de que falo”, diz Al’Hanati ao comentar a audiência de seu canal, hoje beirando os 50 mil inscritos.

É certo que o “jeitão” descomplicado de falar sobre livros dá a tônica no YouTube. Mas no vídeo, diferentemente do texto escrito, há outras variantes que contam muito. O booktuber, ao mesmo tempo, é o meio e a mensagem. Então tudo que está aos olhos do público conta. A “presença de espírito” do booktuber, seu estilo de vida, o cabelo, as roupas, o cenário, a qualidade da imagem e do áudio, etc. É um conjunto que transformou muita gente desconhecida em celebridades da internet, como em qualquer outro segmento.

“Eles gostam das minhas leituras, claro, mas permanecem porque se identificam com minha personalidade. Os trejeitos, forma de abordagem, a vida num geral”, diz Bel Rodrigues. “Sempre fui bem clara sobre minhas visões e a maneira que encaro minha rotina e acredito que isso fidelizou bastante gente que antes só consumia meu conteúdo vez ou outra.”

Outros canais de Booktubers

Pam Gonçalves: Canal da catarinense Pamela Gonçalves existe desde 2012 e hoje tem cerca de 300 mil inscritos. Focado em literatura jovem, também fala sobre cultura pop em geral.

Tiny Little Things: O canal de Tatiana Feltrin trata de literatura mais “cabeça”. De Shakespeare a Gregório de Mattos, Tatiana costuma fazer longas análises sobre autores e obras. A youtuber também é conhecida pelo jeito combativo com que trata assuntos polêmicos.

Minha vida literária: Conduzido por Aione Simões, o canal fala sobre romances, thrillers e livros young adult, além das sempre presentes listas.

Resenhando sonhos: Como o nome sugere, traz muitas resenhas, além de listas “top 5”, projetos de leitura e maratonas. Também fala sobre jogos e séries. Quem apresenta é Tamirez Santos.