A vitória de Pedro Rhuas, autor de “Enquanto eu não te encontro”

O potiguar Pedro Rhuas encontrou na escrita a forma mais genuína de se expressar, o que parece um caminho natural para quem enxerga nos livros seus maiores aliados. Em 2016, para tentar se conectar mais consigo mesmo, iniciou a jornada literária — sempre com alguma música ao fundo — que resultou no livro Enquanto eu não te encontro, um romance young adult protagonizado por pessoas LGBTQIAP+ e ambientado no Nordeste.

Nas prateleiras das livrarias, no entanto, Rhuas não encontrava nenhum tipo de referência para a narrativa que estava construindo. “No lugar de desanimar, a falta de representatividade, minha maior inimiga, me desafiou”, conta o autor que, com uma boa dose de ousadia, resolveu contornar essa situação. “Foi assim que escrevi o livro: valorizando o meu sotaque, a minha casa, a minha comunidade, saindo de uma posição de marginalização para protagonismo.”

Na história, o protagonista Lucas e seu melhor amigo, Eric, são estudantes universitários em Natal. Saídos de Luna do Norte, onde se sentiam diminuídos e precisavam se esconder, os amigos esperam encontrar na capital um ambiente mais acolhedor. Até que, realizado o deslocamento, Lucas descobre que a nova casa não passa de “um interior com mais shoppings e praias” e que soluções imediatas não funcionam.

Pedro Rhuas: “No lugar de desanimar, a falta de representatividade, minha maior inimiga, me desafiou”.

Em busca do amor

“Se me pedissem para me descrever com uma palavra, não hesitaria em escolher ‘desastrado’”, conta Lucas já no início de Enquanto eu não te encontro, talvez sem se dar conta que é justamente essa qualidade que irá lhe proporcionar um encontro decisivo.

Romântico de carteirinha, o personagem quer para si um amor do tipo Sessão da Tarde e se guia pelo conselho de Katy Perry, de quem é fã incondicional: “Se não é como nos filmes, nem é para ser”. Além dessa pressão toda, ele precisa lidar com o fato de que Eric logo engatou um namoro em Natal, com um sujeito (Raul) que parece destilar veneno por meio de comentários despretensiosos, e se tornou um amigo ausente.

Sentindo-se um Pinky sem Cérebro, uma Sandy sem Junior, Lucas vê uma boa oportunidade de aliviar sua tensão na inauguração da boate Titanic. No “esquenta”, ele e Eric tomam algumas doses de Pitú, esse “patrimônio cultural imprescindível à formação da identidade sociocultural do nordestino”, e partem para a festa que irá dar novos rumos à vida amorosa de Lucas.

No decorrer da narrativa, o rapaz começa a perceber que ser seu pior inimigo não é a melhor opção, reconhecendo que sempre está esperando a menor oportunidade para se pôr para baixo. O que ele quer, e com alguma sorte irá conseguir, é poder se afirmar devidamente como o “viado orgulhoso e nordestino” que é, conforme ele mesmo define.

Representatividade

O romance de Pedro Rhuas, vencedor do Prêmio Clipop, é fruto de uma revolta positiva. Do cansaço de ver as pessoas LGBTQIAP+ e nordestinas representadas de forma estereotipadas. “É um livro cheio de orgulho, que não nega suas bandeiras e convicções políticas”, diz. 

“Quero que jovens leitores nordestinos e LGBTQIAP+, que pouquíssimas vezes se veem na literatura contemporânea, tenham o prazer de sentir gosto de casa ao ler o livro; o gosto do sotaque, dos finais felizes e dos clichês românticos que nunca foram escritos para serem seus.”

Na contramão da estrutura dominante, Rhuas espera que o livro seja uma semente para uma mudança social — que ele sente estar acontecendo, aos poucos, “à medida em que pessoas LGBTQIAP+ assumem a direção de suas histórias e de como são contadas”. Apesar de ainda haver um longo caminho pela frente, “que vai exigir sempre mais diversidade e criação de oportunidades”, ele está otimista com os rumos da literatura nacional.

Indicações

Para quem deseja conhecer melhor a literatura protagonizada ou criada por pessoas LGBTQIAP+, Rhuas indica oito títulos, alguns deles disponíveis na loja da Bienal Rio:

Compre os livros na loja Bienal Rio

Enquanto eu não te encontro
Pedro Rhuas
Seguinte
272 págs.

Conectadas
Clara Alves
Seguinte
320 págs.

Um milhão de finais alternativos
Vitor Martins
GloboAlt
352 págs.

Arlindo
Ilustralu
Seguinte
200 págs.

Você tem a vida inteira
Lucas Rocha
Galera
304 págs.