A vida cheia de som e fúria de Elza Soares

“Elza tinha tudo para dar errado. Mulher, negra e cantora naquela época, sofreu todos os preconceitos. Cantava escondida dos pais. E não esqueceu de nada”, disse o jornalista Zeca Camargo durante encontro da Bienal do Rio em 2019, que reuniu Elza Soares e Martinho da Vila para um bate-papo.

Zeca é autor do livro de memórias da cantora carioca, que morreu em janeiro deste ano, aos 91 anos. Elza, lançado originalmente em 2018, voltou à lista de livros mais vendidos no Brasil, demonstrando que o público quer saber mais sobre a cantora, considerada “A Voz do Milênio”.

A fala de Zeca na Bienal se justifica por conta da origem pobre de Elza. Nascida Elza Gomes da Conceição, era filha de uma lavadeira e de um operário. Ela nasceu em Padre Miguel, bairro do Rio de Janeiro, mas o trabalho do pai na icônica Fábrica de Tecidos Bangu — hoje um shopping center — fez com que sua família se mudasse para uma casa simples naquela região.

Logo no início da narrativa, Zeca destaca o lado espiritual forte de Elza, que teria se manifestado quando a cantora ainda era criança, quando tinha “visões” de entidades como São Jorge. Essas visões, acreditava a cantora, estavam relacionadas com fatos de sua vida, como se fosse “sinais”.

“A religião sempre esteve na família de Elza, sobretudo no espiritismo de seu pai, seu Avelino”, escreve Zeca. “Sua lembrança mais forte de fé nessa época eram as ladainhas puxadas dentro de sua casa, por um homem alto, que atendia pelo nome de João Magro.”

Elza Soares e Garrincha.

Vida e obra de Elza Soares

  • Casou aos 13 anos, por imposição do pai
  • Com a mesma idade começou a se apresentar, escondida, em boates da zona sul carioca
  • Foi casada com o jogador de futebol Garrincha
  • Considerada a “voz do milênio” em uma votação de 1999 da rádio BBC de Londres
  • Morreu em 20 de janeiro de 2022, mesmo dia em que também morreu Garrincha, quase 40 anos antes
  • Gravou com Caetano Veloso, Lobão, Chico Buarque, entre outros grandes artistas
  • Nos anos 1980 e 1990 gravou pouco e morou no exterior
  • Nos últimos anos, sua carreira ganhou destaque novamente fora do Brasil
  • Tornou-se uma referência feminista

Percalços

Precoce em tudo, Elza Soares estreou, escondida da mãe, em boates da zona sul carioca. Também aos 13 anos, foi obrigada pelo pai a casar com um homem que também não era muito mais que um garoto após um episódio mal interpretado.

“Eu garanto que não senti o menor prazer”, afirma Elza sobre a primeira vez que transou com seu marido arranjado. “Odiei tudo, queria ficar livre daquilo logo. O Alaordes fazia tudo, sem nenhum carinho — e eu só queria soltar pipa, pular amarelinha, pular corda, correr com os meninos da rua.”

Antes dos 15 anos, ela já tinha perdido dois filhos, episódios que prenunciavam uma trajetória de vida cheia de percalços. Aos 21 anos, Elza já era viúva. O que a obrigou a trabalhar em diversos subempregos.

Carreira

Sua estreia oficial foi em 1953, na Rádio Tupi, no programa “Calouros em Desfile”. Foi naquele dia que Elza começou a mostrar sua personalidade forte e aguerrida. Quando Ary Barroso, o compositor de “Aquarela do Brasil” que apresentava o programa, perguntando àquela menina magra e descabelada de “que planeta” ela teria vindo, Elza cravou: “Do planeta fome”.

“Depois do programa do Ary Barroso, eu achava que minha carreira não ia dar em nada, porque eu não tinha onde cantar”, lembra Elza na biografia. Mas deu. E não por acaso, “Planeta fome” foi o nome do último álbum lançado por Elza, em 2019, o 34º de sua exitosa carreira.

Depois disso, um de seus primeiros sucessos foi “Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues. É quando nasce o estilo marcante que a caracterizaria como cantora, a voz de trovão, “rasgada” e meio rouca, com os conhecidos solos de vocal improvisados, como uma jazzista da MPB.

Nos anos 1960, Elza já era considerada uma das maiores intérpretes do país, o que lhe deu o apelido de “Rainha do Samba”. Nessa época ela gravou discos de sucesso, como “A Bossa Negra”(1960), “Sambossa” (1963), “Na Roda do Samba” (1964) e “Um Show de Elza” (1965).

Mas a vida pessoal continuava atribulada. Depois da copa de 1962, foi acusada de “roubar” Garrincha da esposa e da família. Os dois ficaram juntos por 17 anos, um longo período em que conviveu com o alcoolismo do craque brasileiro.

Perseguida pela ditadura militar, se exilou com Garrincha na Itália. Nos anos 1980 e 1990, viveu uma espécie de ostracismo, mesmo gravando músicas com Caetano Veloso e Lobão. Nesse período, morou mais no exterior do que no Brasil.

Nos anos 2000, no entanto, Elza voltou com tudo e deu nova guinada na carreira, com “A mulher do fim do mundo”, um disco de inéditas aclamado no Brasil e no exterior. Ricamente ilustrado, o livro de Zeca Camargo registra essa vida agitada com uma prosa clara e agradável. Um livro que já é essencial, assim como Elza.

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Elza
Zeca Camargo
Leya
400 págs.