“A tragédia de Macbeth”: Joel Coen leva Shakespeare para o cinema

Um filme escrito e dirigido por Ethan e Joel Coen, mais conhecidos como irmãos Coen, é sinônimo de qualidade — basta dar uma espiada na filmografia da dupla, que assina 18 longas-metragens. E quando somente um deles resolve adaptar uma das peças mais aclamadas de William Shakespeare para o cinema? A tragédia de Macbeth, de Joel, está aí para mostrar que a “mágica” parece estar no sobrenome.

“Eu estava muito nervoso fazendo esse filme, mas por quê? Nada de ruim aconteceria”, reflete Joen Coen em entrevista ao Los Angeles Times, na qual revela estar ciente de que partiria em uma empreitada cinematográfica sem o irmão mais novo desde 2018, quando terminaram A balada de Buster Scruggs. “Eu poderia cair de cara no chão, mas e daí?”

O resultado da adaptação, rodada toda em preto e branco e com cenários bem reduzidos, em uma manobra que parece tentar imitar o que seria um palco de teatro, está distante do que poderia ser considerada uma queda de cara no chão. Denzel Washington no papel de Macbeth, que trai o rei da Escócia após a profecia de três bruxas, e Frances McDormand como Lady Macbeth, incitadora dos atos do marido, têm arrancado elogios da crítica. Não é para menos.

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Frances McDormand interpreta Lady Macbeth.

A profecia de uma noite violenta

A peça de Shakespeare, escrita entre 1605 e 1606, tem muito de superstição. É claro que, olhando de perto, não passa de uma grande e bem-feita metáfora sobre como a vontade de poder pode corromper o homem e levá-lo às mais horrendas atitudes. Não à toa, são várias as frases de impacto a respeito da consciência e da conduta do ser humano que perpassam o trabalho do Bardo.

As bruxas que incitam Macbeth a trair o rei da Escócia, prometendo-lhe o trono logo no início da peça, podem ser algo como a voz que se esconde por trás de cada homem que deseja o poder? Fica aberto a interpretações. Um fato é que Kathryn Hunter, responsável por dar vida às aparições demoníacas no filme de Joel Coen, oferece um show à parte: com contorcionismos e uma dicção assustadora, confere grande peso à cena-chave da narrativa.

A profecia, que acaba por tomar a mente do personagem principal, se cumpre: Macbeth se torna Barão de Glamis e de Cawdor e, com uma ajudinha de Lady Macbeth, disposta a cometer “a mais medonha crueldade”, tira a vida de Duncan, o rei da Escócia. A coroa agora é dele, e estas são algumas qualidades que descrevem o tirano ao longo da peça:

  • Sanguinário
  • Devasso
  • Ávaro
  • Falso
  • Enganador
  • Violento
  • Maldoso
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Kathryn Hunter interpreta as bruxas de A tragédia de Macbeth.

Frases marcantes da peça Macbeth

  • [A vida] é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado
  • O belo é podre, e o podre, belo sabe ser
  • Aquilo que sabe o coração falso, a cara falsa deve esconder
  • Sangue chama mais sangue
  • A excessiva confiança é o maior inimigo do homem
  • Não queres jogar sujo, e mesmo assim desejas vencer de modo indevido
  • Não existe arte pela qual se possa adivinhar o caráter de um homem só observando-lhe a fisionomia

A lição de Banquo

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Banquo (Bertie Carvel) e Macbeth (Denzel Washington) se aproximam das bruxas.

Shakespeare não permite que o “mal” triunfe. É melhor assistir ao filme ou ler a peça para saber o que acontece com Macbeth no final, em uma breve batalha contra os herdeiros de Duncan, o rei da Escócia assassinado, mas antes do desfecho o personagem precisa se bater com alguém que fora seu amigo próximo.

Banquo (interpretado por Bertie Carvel) é o personagem que está junto com Macbeth quando da aparição das três bruxas, e é ele quem parece deixar uma das melhores lições da peça. Na primeira cena do segundo ato, em uma conversa com o guerreiro que logo adiante será responsável pelo assassinato de Duncan, Banquo diz a Macbeth:

Desde que eu não perca a honra ao buscar aumentá-la, desde que continue o meu coração imune a sentimentos de culpa, desde que permaneça eu um súdito leal, receberei de bom grado o seu conselho.

É como se, desde o princípio, o amigo guerreiro sentisse o cheiro podre no ar. Mais para frente, ele refletirá — depois de Macbeth ter assumido o trono manchado de sangue: “Assusta-me a ideia de teres jogado sujo para tanto”. Quando um coração sedento por poder se deixa enfeitiçar por bruxas, pelo visto, não há nada que o faça parar. Macbeth é a prova viva (por quanto tempo?), e Joel Coen conseguiu demonstrar bem essa lição em A tragédia de Macbeth.

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Macbeth
William Shakespeare
Trad.: Beatriz Viégas-Faria
L&PM
128 págs.