A prosa poética de Carla Madeira que conquistou o Brasil

O romance Tudo é rio, da mineira Carla Madeira, estava fadado ao sucesso. Publicado pela primeira vez em 2014, pela Quixote, teve uma carreira exitosa, vendendo acima da média para os padrões da literatura brasileira contemporânea.

Mas foi a partir da reedição do livro pela Record que Tudo é rio virou um verdadeiro best-seller, “levado” em boa parte a partir do boca a boca dos leitores — que é o que sempre dá melhor resultado em se tratando de vendas de livros.

Com uma narrativa que se pode chamar de “franca”, o livro tem arrebatado leitores no Brasil todo e no último ano ficou atrás — em vendas — apenas de Torto arado, de Itamar Vieira Junior, maior fenômeno editorial da literatura de ficção do país desde O filho eterno, de Cristovão Tezza, outro arrasa quarteirão publicado no final dos anos 2000.

A trama

Carla Madeira contrói seu livro por meio de um triângulo amoroso bastante improvável. O romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido. Mas é Lucy a grande protagonista às avessas do livro. Prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, ela entra no caminho do casal.

O local da narração não é identificado, mas trata-se de uma cidade pequena, do interior, com todos os elementos que costumam identificar esses lugarejos: todos conhecem a vida de todos.

E se torna pública a obsessão de Lucy por Venâncio. Um interesse bastante “estranho”, pois Venâncio é um homem de hábitos e pensamentos rudes. Marceneiro, teve uma infância difícil, com uma conturbada relação com o pai, igualmente homem de pouca leveza no trato com os outros.

Personagens

Aliás, uma das qualidades de Tudo é rio, é a construção dos personagens, com suas histórias entrelaçadas enquanto a trama corre, como se essas vidas fossem “afluentes” do rio principal, em uma alusão ao título do romance.  

Mas a questão que se coloca logo no começo da trama, é: Venâncio, o rude, não se deixa encantar pela prostituta mais encantadora do bordel que frequenta. E isso incomoda Lucy, que sente o ego machucado por tal afronta.

“Lucy se encheu de desafio, qualquer custo era o preço que pagava para levar Venâncio para dentro. Questão de honra, condição para calar a boca das despeitadas e manter sua fama à altura do que era capaz na cama”, narra Carla Madeira logo no início.

“Do fundo da alma à superfície da pele, da ponta do dedo às pontas dos pelos, do lado de dentro e de fora, onde existia Lucy não tinha um espaço, miúdo que fosse, que não sustentasse a mais absoluta certeza de que ia ser fácil levar um homem abatido daquele para a cama.”

Essa é apenas uma das tensões propostas por Carla em seu romance de estreia. Mas há muitas outras, e talvez por conta disso que o livro esteja conquistando tanta gente. Na orelha da nova edição, Martha Medeiros chega a chamar o livro de “obra-prima”, tamanho entusiasmo. “E não há exagero no que afirmo”, diz a cronista gaúcha.

“É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa. Na primeira leitura, essa entrega mais lenta é quase impossível, pois a correnteza dos acontecimentos nos leva até a última página sem nos dar chance para respirar. É preciso manter-se à tona ou a gente se afoga.”

Trajetória de Carla Madeira

Claro que nem tudo são flores. O livro recebeu uma crítica dura do professor Luís Augusto Fischer, que viu com certo enfado o tom “poético” de muitos trechos. Mas certamente o saldo é positivo, com muito mais críticas a favor do que contra o livro.

Com três livros no currículo, Carla lançou em 2021 seu mais recente romance, Véspera, que também tem se destacado, com vendas e críticas expressivas. Seu outro livro é A natureza da mordida, de 2018.De Minas Gerais, a autora largou um curso de matemática e se formou em jornalismo e publicidade. Foi professora de redação publicitária na Universidade Federal de Minas Gerais e é sócia e diretora de criação da agência de comunicação Lápis Raro.

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Tudo é rio
Carla Madeira
Record
210 págs.