A morte da mãe: autores escrevem sobre a dor do luto

O sentimento do luto é incontornável. E, como toda questão universal, acaba se tornando matéria-prima para a literatura — como demonstram duas publicações recentes. Os livros autobiográficos Lili: novela de um luto, da paulistana Noemi Jaffe, e Mãe, do português Hugo Gonçalves, tratam ambos de uma das perdas mais dolorosas para o ser humano: a da mãe.

“Perder alguém implica num impacto importante em nosso funcionamento físico e psíquico, afetando a saúde, a cognição, a vida social, a espiritualidade, e desafia o indivíduo a encontrar recursos para lidar com todas as mudanças inerentes à perda”, explicou a doutora em Psicologia Clínica Gabriela Casellato em matéria publicada na Bienal 360º, reiterando que tentar simplesmente afastar a dor, sem processá-la, não é a melhor saída.

Acompanhando o raciocínio, seria a literatura um desses recursos possíveis para lidar com a partida de uma figura essencial? Mergulhar na própria dor com a intensidade oferecida pela criação artística, tornando-a símbolo, pode ser uma maneira tanto de imortalizar a figura da mãe quanto, no processo de escrita, lidar com os próprios sentimentos?

Noemi Jaffe, autora de Lili: novela de um luto. Foto: Renato Parada

Beijo de despedida

“Quando ela estava morta, eu beijei seu rosto, suas mãos, seu colo”, escreve Noemi na abertura de Lili: novela de um luto, que presta homenagem a uma mulher que sobreviveu ao Holocausto e partiu em fevereiro de 2020, aos 93 anos. “Apertava seu pulso, abraçava seu corpo, chamava: mãe, mãe. Levantava sua mão e a deixava cair.”

Em ritmo de descrença, num livro que leva o nome da mãe da escritora, a narrativa busca compreender o que fica após um perda tão dolorosa, em decorrência de uma causa “banal”: infecção nos pés, após um longo período de doença.

“À medida que escreve para combater o luto, Noemi torna mais e mais palpável a presença da mãe, recém-falecida”, comenta o poeta cuiabano Joca Reiners Terron sobre a obra. “E quando o leitor vira a última página, o coração de Lili bate para sempre. Um livro tão comovente que chega a doer.”

A honestidade perturbadora da escrita, elaborada por uma autora que já tinha lidado com a morte do pai, parece fazer jus ao peso do tema e demonstra como a realidade é implacável. “Se quando ela estava quase morta eu esperava que ela morresse, agora é como se eu a quisesse quase morta para sempre”, anota Noemi.

Hugo Gonçalves, autor de Mãe. Foto: Rui Cartaxo Rodrigues

Uma viagem dolorosa

O escritor e jornalista português Hugo Gonçalves evitou lidar com a morte de sua mãe por muito tempo. Desde que recebeu a notícia, em 13 de março de 1985, parece ter se distanciado do assunto. “O pai viúvo e os dois filhos jamais falariam da mulher que perderam”, escreve em Mãe, uma obra que surgiu após o autor receber o testamento de seu avô materno.

“No testamento não há heranças ou revelações”, explica. O gesto, no entanto, foi o propulsor para que Gonçalves revisitasse os anos que tentaram ser empurrados para debaixo do tapete e o fizesse tentar entender o porquê ele tinha tanta afinidade com o romance O estrangeiro, de Alber Camus, que parecia, ao autor de Mãe, “uma biografia de minha desorientação e afastamento”.

Nessa viagem por memórias dolorosas, das quais ele tentou fugir por mais de 30 anos, o português repassa sua própria compreensão do mundo. “Tinha de perseguir tudo o que me pudesse desprender do puxão gravitacional que era a ausência da minha mãe — não apenas a doença, a morte ou o luto, mas a minha mãe inteira, apagada de uma só vez”, escreve. 

Outros livros

Há muitas obras que tratam do luto, sejam autobiográficas ou ficcionais. Duas do primeiro tipo são A história de uma viúva (2008), de Joyce Carol Oates, e O ano do pensamento mágico (2005), de Joan Didion, indicado ao Pulitzer. Ambas são norte-americanas e narram, em seus livros, as dificuldades que seguiram à morte de seus maridos.

Já quando se fala em ficção, o português José Saramago (1922-2010) deixou reflexões pertinentes no romance As intermitências da morte (2005). A narrativa imagina o que aconteceria se a morte não visitasse mais os seres humanos. “No dia seguinte ninguém morreu”, começa o livro, que tenta demonstrar o que seria de uma sociedade “amaldiçoada” com a vida eterna.

Compre os livros na loja Bienal Rio

Lili: novela de um luto
Noemi Jaffe
Companhia das Letras
112 págs.

Mãe
Hugo Gonçalves
Companhia das Letras
184 págs.