A magia industrializada de Robert Jackson Bennett, autor da trilogia “Os fundadores”

Desde o clássico Frankenstein (1818), da inglesa Mary Shelley (1797-1851), a ficção científica parece ser uma das melhores formas de debater assuntos urgentes de maneira literária, artística. Foundryside: às margens da fundição, do norte-americano Robert Jackson Bennett, é o primeiro volume da trilogia “Os fundadores” e não foge à regra — aqui, os horrores que podem surgir de um capitalismo desenfreado vêm à tona.

Na história, que se passa na fictícia cidade futurística de Tevanne, Sancia Grado é uma ladra boa no que faz — “muito melhor em roubar do que em matar”, aliás. Quando recebe um trabalho cujo pagamento é tão substancial que pode libertá-la da vida de crimes, no entanto, ela será capaz de qualquer coisa.

“Sancia estava disposta a comer muita merda e derramar uma quantidade considerável de sangue por vinte mil duvots”, anota o narrador de Foundryside: às margens da fundição. E o começo do livro não o deixa mentir: já de partida, Sancia se enfia no esgoto e precisa passar por uma pilha de ratos para tentar chegar ao objeto desejado. 

Robert Jackson Bennett, autor de Foundryside: às margens da fundição.

Mágica e crítica social

Na distopia de Robert Jackson Bennett, a magia é usada para fins capitalistas. O artefato que Sancia é contratada para roubar, mesmo que ela não saiba disso a princípio, seria capaz de descentralizar a incrível e perigosa tecnologia que executa a “inscrição” — comandos codificados que dão vida a objetos inanimados, utilizados pelos poderosos para manter a hegemonia social em Tevanne.

A própria protagonista também tem uma capacidade excepcional: “Quando tocava um objeto com a pele descoberta, ela o entendia. Entendia sua natureza, sua constituição, seu formato”. Apesar disso, e mesmo o pagamento sendo exorbitante (vinte mil duvots), o roubo não será um passeio no parque para a personagem — e há, na verdade, um motivo muito mais obscuro por trás dessa história toda. É possível que os próprios poderosos queiram que o artefato seja roubado.

Já de início a escatologia se faz presente na narrativa, em uma mensagem que parece tentar mostrar o quão baixo uma pessoa pode ir em nome do dinheiro — no caso de Sancia, enfiar-se no esgoto e passar por cima de ratos. E, é claro, jogar alto com a própria vida. “Ainda nem cumpri o primeiro passo e quase já fui morta”, pensa a ladra.

A periferia e cicatrizes

Sancia é habitante das Áreas Comuns de Tevanne, destinadas aos menos abastados. As pessoas que moram ali, mesmo a protagonista sendo durona, são tão sinistras quanto ela mesma — uma manobra semelhante à de Anthony Burgess em seu Laranja mecânica, por exemplo, no qual a estratificação social leva à aglomeração de pessoas que “não se encaixam” dentro do sistema predatório vigente. Não que elas sejam santas, mas estão ali por algum motivo.  

O único amigo de Sancia, se é que é possível chamá-lo assim, é Marino Sarccolini, seu receptador e agente. O homem é completamente deformado fisicamente (“tinha um pé, nenhuma orelha, nem nariz, e faltavam-lhe dedos intercalados na mão”), o que parece espelhar a própria condição do personagem: como se fosse um párea do sistema capitalista.

Sancia segue a mesma linha: tem uma grande cicatriz no rosto e muitas outras nas costas. Um de seus objetivos com os roubos, inclusive, é conseguir juntar dinheiro para contratar um “medicineiro” capaz de “consertá-la”, fazê-la “normal” perante o que deveriam ser seus semelhantes.

O autor, personagens principais e trama

  • Foundryside: às margens da fundição, do norte-americano Robert Jackson Bennett, é o primeiro volume a trilogia “Os fundadores”
  • Sancia Grado, a protagonista do livro, é “muito melhor em roubar do que em matar”
  • As casas comerciais de Tevanne, onde se passa a história, controlam a tecnologia mágica da “inscrição”
  • Sancia é contratada para roubar um artefato que poderá mudar os rumos da civilização
  • Por vinte mil duvots, que é o valor que poderá ganhar com o roubo, está disposta a “comer muita merda e derramar uma quantidade considerável de sangue”
  • Sancia é pouco alfabetizada e mora nas Áreas Comuns de Tevanne, espécie de periferia do local
  • Ela tem o poder de entender um objeto somente pelo toque
  • Está juntando dinheiro para dar um jeito na cicatriz de seu rosto, apenas uma das várias que tem pelo corpo
  • Marino Sarccolini é o único que pode ser considerado amigo da protagonista

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Foundryside: às margens da fundição
Robert Jackson Bennett
Trad.: Aline Storto Pereira
Morro Branco
640 págs.