A literatura navega pelas redes

Na ruas da Grécia Antiga, acompanhados pelo toque da lira, os poetas cantaram feitos heroicos como os do semideus Aquiles, protagonista da Guerra de Troia. Quando registrada por escrito, por volta do século VIII a.C., essa batalha deu origem à Ilíada, de Homero, um poema épico que é lido há mais de dois milênios e ilustra bem como a veiculação da literatura se modifica e se adapta ao longo do tempo.

Atualmente, a literatura encontrou amplo espaço na internet, como a Bienal 360º já havia observado nas matérias A vitória dos booktubers e O prazer de ouvir: podcasts invadem a literatura. As possibilidades oferecidas pelo meio virtual, no entanto, vão além.

O Instagram, por exemplo, abriga diversos perfis com muita audiência — como nos casos das poetas Clarice Freire (Pó de Lua) e Juliana Valentim (Palavras que Dançam), que também têm livros impressos, e do resenhista Pedro Pacífico (Bookster). Juntos, somam mais de meio milhão de seguidores somente nessa rede social.

Pedro Pacífico, o Bookster: “É importante entender o papel da leitura como uma ferramenta social com poder de diminuir algumas desigualdades”.

Horizontes criativos

Clarice Freire compartilha sua poesia desenhada — ou desenho palavreado, como ela define — na internet desde 2011. Há uma década, a recifense criou a página no Facebook Pó de Lua, que tem hoje mais de 1 milhão de curtidas, e também transita pelo Instagram.

Experiente no meio virtual, e com dois livros impressos pela Intrínseca, Clarice afirma que, nas variadas formas de se veicular conteúdo autoral, “há uma diferença maravilhosa que permite ampliar os horizontes criativos em cada lugar onde a literatura nasce e resolve morar”.

Apesar dessas possibilidades, a autora de Pó de lua (2014) e Pó de lua nas noites em claro (2016) está sempre alerta: “É preciso tomar muito cuidado com formatos e expectativas dos suportes distintos, para não acabar caindo na armadilha de escrever buscando resultados em forma de likes, especialmente na internet”.

O tempo da internet

As particularidades do meio virtual também não escapam à visão de Juliana Valentim, que mantém um site homônimo de seu Instagram. Autora de três livros impressos — Manuscritos de um viajante (2007), Palavras que dançam (2014) e O abrigo de Kulê (2020) —, a poeta de Brasília (DF) observa que a ritualística que envolve a produção da obra física, na qual ela começou, é diferente da do conteúdo digital.

“No impresso, o escritor precisa controlar a ansiedade e aproveitar a jornada da produção. Já na internet, o tempo é contado de forma diferente, as fases são mais curtas e a obra alcança mais rapidamente o leitor”, explica Juliana. “E o retorno do público chega mais rápido também. A internet tem pressa.”

Dentro desse “caos” virtual, opina Clarice Freire, o importante é que o escritor não deixe de lado o que considera, de fato, importante. “Só aquilo que é verdadeiro tem algo de único”, diz. “E acaba não caindo no ‘mais do mesmo’”.

Juliana Valentim: “Acho que a fórmula do sucesso é se conhecer e se compreender enquanto escritor”.

Espaço democrático

Para o advogado Pedro Pacífico, conhecido nas redes como Bookster, o meio virtual é uma forma de democratizar o acesso à literatura, uma vez que as plataformas permitem ao criador se aproximar mais diretamente do público, para além das abordagens propostas pela academia.

“Minha ideia é passar minha experiência de leitor comum para outro leitor comum”, explica Bookster, que mantém um site e, em seu canal de resenhas no YouTube, tem mais de 600 mil visualizações.

Esse formato que tira a literatura do pedestal, segundo Pacífico, parece indicar como as editoras e criadores de conteúdo tendem a se comportar daqui para frente.

“A ideia é que os livros, editores e autores estejam cada vez mais próximos do leitor”, pondera. “Acho isso muito legal: evita aquele processo de afastamento do livro com o público, como se fosse algo intocável.”

Divulgação para todos

“A internet, se bem utilizada, é uma ferramenta absolutamente incrível para a divulgação de trabalhos literários”, diz Juliana Valentim. “E isso vale para iniciantes, mas também para aqueles que já estão consolidados.”

É a mesma impressão de Clarice Freire. Se antes do lançamento de seu primeiro livro a recifense sentia muito preconceito por parte do “leitor tradicional”, hoje ela vê que “praticamente todos estão na internet”.

“Vejo inúmeros autores consagrados em seus livros impressos compartilhando pequenos textos, pensamentos e poemas em seus perfis no Instagram, fazendo lives”, conta. “A internet é esse espaço que também é democrático — ainda que não totalmente — e diverso.”

Para os que eventualmente ainda tenham algum tipo de receio com conteúdo veiculado na internet, a poeta deixa uma reflexão: “Sempre me pergunto o que fariam um Drummond, um Leminski, uma Clarice [Lispector], se tivessem em mãos essas ferramentas maravilhosas das redes sociais para criar, usar.”

Clarice Freire: “A arte salva, posso dizer sem medo de errar”. Foto: Leo Aversa

Respiro na pandemia

O Brasil vive os terrores da pandemia do novo coronavírus há mais de um ano. Apesar de todas as dificuldades pelas quais as livrarias físicas estão passando, o conteúdo virtual parece ter ganhado maior relevância.

“Sinto o quanto as pessoas buscam palavras para, de alguma maneira, falar sobre suas próprias dores ou até tocar alguma forma de esperança”, diz Clarice, que observou uma “necessidade de arte por parte das pessoas”.

O mesmo interesse renovado foi observado por Juliana. “Creio que momentos desafiadores como este fazem com que busquemos algum tipo de alívio para a alma”, pondera, dizendo ainda que vê as pessoas consumindo mais cultura e que se aproximou muito de seu público.

Para Bookster, que também sentiu uma procura maior do público, a explicação está em uma espécie de possível introspecção que a sociedade está experimentando: “A partir do momento que se veem em casa, refletindo mais sobre a vida, as pessoas tentam desenvolver hábitos mais saudáveis. Dentre eles, a leitura se destaca”.

Clarice ainda salienta que essa necessidade ficou gritante especialmente nos tempos mais duros da pandemia — “como é o caso de agora”, diz. Apesar de todos os impasses, ela crava: “A arte salva, posso dizer sem medo de errar”.