A literatura feminista e o avanço do movimento no Brasil

Rio de Janeiro – Diversas entidades e grupos do movimento feminista participam da Marcha Mundial das Mulheres, pela igualdade de gêneros e combate à violência (Fernando Frazão / Agência Brasil).

A escritora Djamila Ribeiro foi uma das vencedoras da 62ª edição do prêmio  Jabuti com o livro Pequeno Manual Antirracista (Companhia das Letras), um dos mais vendidos no site da Amazon. Autora de Quem tem medo do feminismo negro? (Companhia das Letras) e ícone da nova geração de escritoras feministas negras, Djamila tem aberto caminhos para a construção de novos imaginários que restituem a humanidade de grupos historicamente marginalizados. Não é de hoje que escritoras como ela apontam para o avanço das reflexões e dos movimentos em defesa da igualdade e respeito às mulheres no Brasil.

Cabe aqui dar alguns passos para trás na linha cronológica para explicar que o movimento feminista surgiu na Europa, no século XVII, fruto de uma onda de questionamentos e inquietações femininas. O contexto era a Revolução Industrial, o trabalho exaustivo nas fábricas e os ideais de igualdade herdados da Revolução Francesa que permeavam a sociedade. Esse momento inicial do movimento feminista é conhecido como a “Primeira Onda” e chegou ao Brasil no século XIX. 

  A escrita, desde sempre, foi utilizada como forma de expressão para reivindicar direitos. O jornal A Família, veiculado a partir de 1888 em São Paulo e depois no Rio de Janeiro, criado por Josephina Álvares de Azevedo, foi essencial para incentivar a emancipação das mulheres e divulgar as conquistas femininas pelo país. A escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) também foi um dos nomes que marcaram o período. Suas obras ⎯ Conselhos à Minha Filha (1842), Opúsculo Humanitário (1853) e A Mulher (1856), junto com a tradução da obra pioneira de Mary Wollstonecraft, A Vindication of the Rights of Women (1832) ⎯ apontam o despertar de uma consciência crítica feminina. Nesse tempo, a rede feminista que se formava no país tinha a luta sufragista como uma das prioridades.  

  Já o feminismo de “Segunda Onda” surgiu depois da Segunda Guerra Mundial. Uma de suas principais expressões era: “o privado é político”. Na década de 1970, escritoras como Simone De Beauvoir e Betty Friedan passaram a circular nas mãos e mentes de leitoras e ativistas brasileiras. O retorno de exiladas políticas vindas da Europa influenciou o consumo destes e outros livros considerados à frente de seu tempo. Quem explica é a socióloga Anna Marina Barbará Pinheiro, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Laboratório de Estudos de Gênero.

Junto a outras companheiras, Hildete (primeira à esquerda) criou um grupo de trabalho sobre o papel da mulher. Sua militância no PCB foi indispensável para sua ativa participação no movimento feminista. (arquivo pessoal).

Anna pontua que, apesar de boa parte dessa literatura dos anos 1960 e 1970 ter sido trazida pelas exiladas, o livro O segundo sexo (Editora Nova Fronteira), de Beauvoir, de 1949, considerado um divisor de águas, “certamente já tinha seu público no Brasil antes disso”. Ela reforça ainda que Betty Friedan esteve no país em 1971 para lançar o livro Mística Feminina (Editora Rosa dos Tempos) e que sua visita repercutiu bastante na imprensa.

 Hildete Pereira de Melo, do Programa de Estudos pós-graduados em Políticas Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), uma das feministas que esteve ao lado de militantes e intelectuais como Rose Marie Muraro, Lélia Gonzalez, Nair Goulart e Sueli Carneiro, recorda a forma como a turma do Pasquim, jornal que foi um marco da imprensa brasileira alternativa, tratou a escritora norte-americana. Lançado em 1969, o Pasquim era um fenômeno de vendas, com sua linguagem carregada de humor e provocações, e circulou nos anos mais duros da ditadura. 

 “O Pasquim, que era composto por jornalistas de esquerda, considerados os arautos da democracia, a trataram de uma forma machista escandalosa, falando mal até mesmo de sua aparência. Esse tratamento evidenciou as raízes do machismo estrutural”, afirmou.

 Hildete, que também integrou o Centro da Mulher Brasileira, lembra que a escritora Rose Marie Muraro era editora da Vozes e foi a responsável pelo convite à Friedan. Nos Estados Unidos, Mística Feminina tinha ultrapassado a marca de 1 milhão de vendas. 

 “Friedan abordou o mal-estar das donas de casa escolarizadas, isoladas, presas ao padrão de comportamento imposto naquela época. Na década de 70, estávamos num momento crucial para a defesa dos nossos direitos: em 75 foi realizada a Primeira Conferência Mundial sobre a Situação da Mulher. Na imprensa, tínhamos Carmem da Silva, jornalista que escrevia para a revista Claudia; Heloneida Studart, da Revista Manchete. Elas pautavam a liberdade sexual, independência financeira e valorização feminina”, relembra Hildete, que prossegue: “No judiciário, havia a Comba Marques Porto, advogada e juíza, a favor da criminalização de assassinos impunes sob o discurso da legítima defesa da honra. Houve ainda o feminicídio no qual a socialite Ângela Diniz foi assassinada pelo então namorado Doca Street, um caso chocante.” (O podcast Praia dos Ossos, minissérie da Rádio Novelo idealizada por Branca Vianna, uma das participantes do Festival Conexões, aborda esse feminicídio ocorrido em 1976 ⎯ Clique aqui para assistir à sessão).

Enquanto o feminismo se expandia nas megalópoles e inspirava mulheres, em sua maioria brancas e da classe média, mulheres negras nutriam agenda própria com destaque para a luta contra a morte da juventude negra nas favelas em decorrência da violência policial. Quem esclarece é a professora Fernanda Barros, conselheira do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (NEPP-DH/UFRJ) e coordenadora do Laboratório de Relações Étnico Raciais na mesma instituição.

 Ela ressalta que, concomitante à defesa da vida de jovens negros e negras, faziam parte da lista pautas como o combate à exploração das mulheres pretas e pardas, sobretudo domésticas, que encaravam dupla jornada de trabalho; a luta LGBTQIA+, bem como a defesa das religiões de matriz africana e mais: moradia digna, creche, saneamento básico e saúde.

Fernanda acrescenta ainda que a notoriedade do feminismo negro brasileiro na contemporaneidade tem como aliado o amplo alcance da discussão sobre raça e racismo nas redes sociais (Instagram, Facebook, Youtube).

 “Essa pluralidade de vozes na literatura, na representação política, na música e nas redes sociais, é fundamental para lançar luz sob o terror do racismo, bem como a estrutura racista e sexista que tem efetuado o massacre das mulheres negras e minorias na base da pirâmide social, sob prisma global”, defende Fernanda Barros.

A professora Fernanda Barros (UFRJ) aponta o protagonismo das mulheres negras no movimento feminista.

No segmento literário, a professora cita escritoras que, segundo ela, são fundamentais para compreender as questões do feminismo negro. 

“Carolina de Jesus foi uma das pioneiras no Brasil a dar visibilidade para as condições da mulher negra. Depois, escritoras internacionais como Audre Lorde, Angela Davis e Bell Hooks chegam no mercado editorial para solidificar o pensamento feminista. Kimberlé Crenshaw, Chimamanda Ngozi Adichie, Grada Kilomba e as brasileiras Carla Akotirene e Djamila Ribeiro fazem parte de uma nova geração.”

Vozes representativas na luta pela igualdade de gênero e racial, a jornalista e empresária Luana Génot e a escritora Jarid Arraes também têm a literatura como inspiração para uma sociedade mais justa e plural. Confiram a seguir as indicações literárias delas sobre o tema:

Livros citados por Luana Génot:

– Lugar de Negro (Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg); 

– Racismo, sexismo e desigualdades no Brasil (Sueli Carneiro);

– Quem tem medo do Feminismo Negro? (Djamila Ribeiro);

– Narrativas Negras: Biografias ilustradas de mulheres pretas brasileiras (Coletivo Narrativas Negras).

Livros citados por Jarid Arraes:

Por um feminismo afro-latino-americano (Lélia Gonzalez);

– Mulheres, raça e classe (Angela Davis);

– Olhos d’água (Conceição Evaristo);

– Irmã outsider: Ensaios e conferências (Audre Lorde).