A jornada do escritor, ancestralidade, resistência e dúvidas marcam oitavo dia de Bienal

“Todos nós somos escritores, só que alguns escrevem e outros não.” A partir dessa frase do português José Saramago (1922-2010), vencedor do Nobel de Literatura de 1998, Bianca Ramoneda — uma das curadoras da Estação Plural, palco de debates da Bienal do Rio 2021 — pensou a mesa de abertura do oitavo dia de evento, que discutiu o percurso entre o desejo de contar uma história e sua publicação.

Subiram ao palco o mediador do encontro e um dos grandes agitadores culturais do Brasil, Marcelino Freire, e outros importantes nomes que produzem ficção e se preocupam em propagar essa arte no país: Aline Bei, Binho Cultura, Cristiane Sobral e Stênio Gardel. “Só a cultura e a literatura podem substituir essa dor que a gente ainda está sentindo”, refletiu Marcelino na abertura do bate-papo, pedindo que todos elevassem seus pensamentos em respeito à memória das vítimas da Covid-19.

Uma questão lúdica, e que fala muito sobre esse passo inicial entre desejo e realização, puxou as reflexões da mesa: “O que você diria para seu eu do passado sobre sua trajetória?”. Binho Cultura tinha a resposta na ponta da língua. Para ele, criador da Festa Literária da Zona Oeste e autor de seis livros, o homem participando desta edição da Bienal deve muito à professora de língua portuguesa Cleonice, responsável por lhe apresentar o caminho das artes. “Ela acreditou em mim. E eu acreditei nela”, disse Binho, que montou uma biblioteca comunitária bem cedo, aos 18 anos.

Marcelino Freire comanda a primeira mesa do dia.

Em mais uma fala que arrancou aplausos da plateia, Cristiane Sobral gostaria de ter dito a si mesma que “preparasse um estoque de munição muito grande”. “Ela até podia acreditar que era um cachorrinho pequeno, mas os tempos lhe mostrariam como crescer e se tornar um cachorro grande”, continuou a autora dos contos de Amar antes que amanheça (2021) e outras nove obras. “Tem certeza que quer pular na cachoeira? Pula. Vai com medo e tudo!”

O cearense Stênio Gardel, autor do romance A palavra que resta (2021), volta no tempo para falar com aquele menino de 12, 13 anos, que estava encantado com O cão dos Baskerville, de Arthur Conan Doyle. “É possível. Haverá desvios. Haverá barrancos. Mas a estrada principal estará lá”, disse. “Tenha um pouquinho de paciência. Trabalhe e vá atrás. É possível.”

A autora mais nova da mesa encerrou o exercício lúdico. Para Aline Bei, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura com O peso do pássaro morto (2017) e lançou neste ano Pequena coreografia do adeus, o movimento mais importante para sua trajetória literária foi ter Marcelino Freire como mestre. “A melhor coisa da minha vida foi ter feito a oficina com você”, confidenciou a paulistana.

Ancestralidade e memória

A escritora Eliana Alves Cruz, autora dos livros Nada digo de ti, que de ti não veja (2020) e Água de barrela (2016), entre outros, esteve à frente do segundo encontro do dia: “Ancestralidade e memória nas letras presentes”. Fabiana Cozza, Leda Maria Martins e Nei Lopes participaram do bate-papo.

A mediadora puxou a conversa propondo a questão que guia os debates da Estação Plural: “Que histórias a gente precisa contar agora?”. A cantora e escritora Fabiana Cozza, que no ano passado lançou o álbum Dos santos e participa da antologia Contos de axé (2021), respondeu com o trecho de uma música e emendou uma reflexão sobre como os símbolos da bandeira brasileira foram sequestrados pelo governo atual — por isso, ao invés de “ordem”, ela propõe que se use “orem”.

“A gente está precisando de muita reza. E os povos de muita reza, desse país, são os povos originários”, disse Fabiana, que acha que a trajetória dos “donos da terra” precisam ser visitadas. No decorrer do encontro, ela ainda lamentou a forma que a academia trata a produção literária de autores negros.  

Leda Maria Martins fala durante a mesa “Ancestralidade e memória nas letras presentes”.

A valorização de outros discursos que não o eurocêntrico também foi reivindicado pela professora, poeta e ensaísta Leda Maria Martins. “Todas as histórias, sem exceção, ainda precisam ser contadas. Recontadas”, afirmou a autora de Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela (2021). “De outros lugares, com outras vozes. Por meio de outros pontos de vista, percepções. Todas elas. De todos os povos.”

O múltiplo Nei Lopes, autor de mais de 40 livros e doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), saudou sua ancestralidade — “muito rica” — e desejou que o segundo encontro do dia, marcado pelo debate sobre literatura feita por pessoas negras no Brasil, tornasse a todos mais completos.

“Tive muita necessidade de me expressar, em busca de preencher as lacunas que via na sociedade brasileira”, disse Lopes sobre o início de sua trajetória artística, que também passa pela música. O mestre, como foi chamado várias vezes durante o encontro, também leu um escrito próprio em que explica o significado de “ancestral” e “ancestralidade” para os africanos e afrodescendentes.  

Criança a caminho

Um tom mais descontraído embalou o terceiro encontro do dia, no qual Maíra Oliveira mediou uma conversa sobre maternidade e paternidade. Christian Figueiredo, Leo Aversa e Tati Bernardi, todos autores de obras que exploram esse acontecimento transformador, dividiram com o público suas experiências.

Fotógrafo e autor de Crônicas de pai (2021), Aversa demonstrou a irreverência com a qual aqueles que estão acostumados com seus textos n’O Globo já conhecem. “Antes de ter filho eu era um psicopata”, brincou. “Minha vida era tipo um documentário do Discovery Channel: aquele porco-espinho, aquele chacal que vai andando pela floresta atrás de acasalamento e comida.”

O youtuber Christian Figueiredo, dono de um canal com 7,6 milhões de inscritos e autor de Vou ser pai: os 9 meses mais lokos da minha vida (2020), também precisou se adaptar à nova realidade. A chave virou na cabeça dele ao escutar as palavras mágicas de sua companheira: “Chris, eu tô grávida”.

Christian Figueiredo, autor de Vou ser pai: os 9 meses mais lokos da minha vida (2020).

A partir daí, Figueiredo pegou um bloco de notas e começou a anotar o que estava sentindo — o que viria a se tornar o livro já mencionado. “Em cada capítulo, narro como as coisas estavam na minha cabeça”, explicou. “E a virada, o preparo para a chegada de um bebê, que realmente deixa a vida de qualquer um de cabeça pra baixo.”

A escrita e a chegada de uma criança também andaram lado a lado no caso de Tati Bernardi, colunista da Folha de S.Paulo e autora de Você nunca mais vai ficar sozinha (2020). O título da obra, produzida durante e depois o período de gestação da paulistana, veio de um comentário que sua mãe fez ao receber a notícia da gravidez.

Essa pressão toda, no entanto, não parece ter abalado Tati. No livro, ela faz questão de tentar desmitificar a ideia de que a grávida e a mãe precisam ser felizes o tempo todo. “Quis, quero e continuarei querendo muito ser mãe”, contou.

“Sou muito feliz sendo mãe. Amo minha filha. Mas, em vários aspectos, é um porre. E é preciso falar sobre isso. Até para ter menos depressão de mulher, nesse lugar de ter de ser uma mãe perfeita.”

Tratando-se de pessoas com grande visibilidade, uma das questões mais interessantes ficou pairando no ar: quando os filhos estiverem mais velhos, será que vão lidar bem com o fato de terem sido “expostos” ao público?

Tom Grito, um dos fundadores do Slam das Minas RJ.

Existir é resistir

Em uma mesa formada por poetas e escritores, Gabriela Gomes (mediadora) destacou a importância de se reinventar e resistir em um momento tão delicado do Brasil e do mundo.

Para começar, ela leu o conceito de “resistir” presente no livro Para ressignificar um grande amor, de João Doederlein, o Akapoeta — um dos convidados do encontro, ao lado de Luciene Nascimento, Tom Grito e Michel Melamed:

é contrariar estatísticas. é firmar os pés na areia e não deixar o mar te derrubar. é nadar contra a maré. é ser artista. é visitar um museu. é plantar árvores. é escrever um livro. é amar sem medo. é superar distâncias. é levantar depois da queda. é ser mãe. é fazer o que ama. é iluminar memórias sombrias.

é existir duas vezes.

Para Akapoeta, autor de quatro livros e com 1 milhão de seguidores no Instagram, “o livro faz a gente existir e resistir diversas vezes”. Esse tom marcou o encontro, no qual todos os presentes concordaram que a poesia é o caminho da resistência por excelência — mesmo que existam dúvidas no caminho.

“O que é ser um artista?”, perguntou-se Michel Melamed, ator na série “Onde está meu coração”, da GloboPlay. Apesar de se considerar no “auge” dessa dúvida, o carioca foi enfático: “O ato central, único possível de resistência, é a poesia. (…) No meio dessa brutalidade toda, só é possível seguir com a delicadeza da poesia e do olhar poético”.

Essa forma de encarar o mundo também pode ser politizada. Para Tom Grito, que se definiu poeta e pessoa trans não binária, “a poesia tem se tornado uma das formas políticas de se posicionar”. Ele é um dos fundadores do Slam das Minas RJ, do qual participam mulheres e pessoas trans, e acredita que há uma luta coletiva em andamento:

“Estamos vivendo questões semelhantes. O povo preto, as pessoas trans, as pessoas LGBTQIAP+: são todos corpos dissidentes, fora do padrão, sempre excluídos de alguma forma. (…) Se a gente puder contar a história na nossa perspectiva, já é uma garantia de existência de outros futuros”.

Autora de Tudo nela é de se amar (2021), Luciene Nascimento também crê na capacidade de a escrita gerar uma espécie de pertencimento. “Muito do que escrevo e registro na minha literatura me fez existir para os outros e me trouxe esse retorno. Na maneira que o outro me vê, passo a me ver também”, disse. “Isso vai nutrindo a gente. Escrever é existir.”

Aza Njeri participa da mesa que encerra o oitavo dia de Bienal.

Que futuro você quer?

Escritores de literatura, roteiristas, pesquisadores e atores negros se juntaram na mesa “Futuros imaginados”, que encerrou o oitavo dia da 20ª Bienal do Rio. Com mediação de Marton Olympio, o encontro reuniu Aza Njeri, Elisio Lopes Jr., Ale Santos e Lázaro Ramos.

Para iniciar o debate, Olympio levantou a questão que a mesa propõe: que futuro os convidados imaginam? E como a literatura está inserida nele? A doutora Aza Njeri, que escreve “porque a literatura musculariza a inteligência”, acredita que, em primeiro lugar, é preciso rever os conceitos que permeiam o presente.

“Para haver um futuro a gente vai ter que ter coragem de destituir agendas universalizantes e promover uma pluriversal”, disse. “Sem pluriversalidade não há futuro. Há, na verdade, uma retroalimentação do holocausto que já existe no presente.”

Relacionando o porvir e a produção de literatura, Ale Santos — autor de O último ancestral (2021) — acredita que o avanço está em conseguir conectar a sociedade a um pensamento de futuro igualitário. “A um futuro que não seja limitante só a algumas pessoas que estão no topo da cadeia”, explicou.

Para que tudo isso possa ocorrer, o desejo — ou o direito a desejar — é imprescindível. É o que acredita o roteirista, escritor e diretor Elisio Lopes Jr., autor de Monocontos: “Só acredito no futuro de quem tem o direito ao desejo. O futuro está diretamente ligado ao desejar. Se posso desejar, posso ter futuro. Se não posso desejar, que futuro posso ter? É absolutamente indissociável uma coisa da outra”.

O pensamento é compartilhado pelo ator, diretor e escritor Lázaro Ramos, que festejou o fato de, após um período longo de quarentena, poder estar novamente em um evento presencial. “O futuro tem muito a ver com sonho e desejo”, disse.

Para ele, o mais interessante é pensar em como a individualidade das múltiplas vozes de hoje será demonstrada na escrita. “Descobrir o novo a partir da diversidade” é o que deseja o autor dos livros O pulo do coelho (2021) e Na minha pele (2017), entre outros, preocupado em agregar sua expressão artística a uma forma acessível a todos.