A insurgência poética das minas do slam

Quando tinha 15 anos, Midria da Silva Pereira entrou pela primeira vez em contato com um circuito poético. O Sarau do Vale, que acontece na região do Jardim Iguatemi, na zona leste de São Paulo, foi o pontapé inicial para despertar o seu interesse em se expressar por meio dos versos. Foi também a porta de entrada para o universo do slam, gênero em que Midria começa a se destacar.

Ela lançou recentemente dois livros, um infantojuvenil e outro de poemas, ambos chamados A menina que nasceu sem cor, que derivam do seu poema mais conhecido (e de mesmo nome), cujo vídeo com a autora declamando o texto alcançou mais de 7 milhões de pessoas nas mídias sociais.

Assim como Midria, muitos outros jovens encontraram nas batalhas de slam o lugar certo para expressar o que sentem no dia a dia. “Foi no sarau que comecei a escrever mais sobre o que realmente estava ao meu redor e me entender como poeta. Os slams chegaram para mim como uma continuidade disso”, diz a poeta, que aos 20 anos cursa Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP).

Midria: “No caso da cena brasileira, temos questões históricas não resolvidas, de raça, gênero, classe, LGBTQIA+, intolerância religiosa”.

Criado por Marc Smith em Chicago, nos anos 1980, o slam é uma competição de poesia falada. Originário do inglês, o termo quer dizer batida (ou algo como “pancada”). Assim como nas rinhas de MCs, os slammers se enfrentam em batalhas poéticas, com poemas autorais de até três minutos, mas sem a utilização de objetos cênicos e ou acompanhamento musical. Corpo e voz são elementos fundamentais. Os campeonatos “estaduais” dão direito a disputar o Slam Brasil, cujo vencedor representa o país na Copa do Mundo de Slam.

No Brasil, uma das precursoras é a atriz e poeta Roberta Estrela D’Alva, que começou o movimento no final dos anos 2000. A partir daí, os eventos se alastraram Brasil afora, tomando todas as regiões do país.

Um dos nomes mais conhecidos do slam hoje, Luz Ribeiro fez caminho parecido com o de Midria. Em 2012, ela descobriu a poesia falada no tradicional Sarau da Cooperifa, que há mais de duas décadas acontece na periferia de São Paulo.

“Sempre escrevi muito, mas até então só escrevia, não chamava meus escritos de poema, não dizia que fazia poesia”, lembra Luz, que hoje já tem quatro livros publicados. “Na Cooperifa vi corpos iguais aos meus, narrativas próximas à minha, então percebi que eu fazia uma literatura marginal periférica. E de forma muito rápida, após esse primeiro encontro, eu entrei no slam.”

Luz Ribeiro é uma das autoras selecionadas por Heloisa Buarque de Hollanda para a recente coletânea As 29 poetas hoje (Companhia das Letras). O livro é uma espécie de “sucessor” de 26 poetas hoje, também feito por Heloisa, lançado em 1976 e que relevou vários autores, entre eles Ana Cristina Cesar, Torquato Neto e Waly Salomão. Todos representantes da chamada geração mimeógrafo, que faziam e vendiam seus próprios livros. A antologia ganhou nova edição e agora sai junto com As 29 poetas hoje, em uma espécie de dobradinha de gerações.

Luz Ribeiro: “Uma resposta a essa estrutura patriarcal e machista, racista, que está imposta. Por isso o slam é combativo, social”.

Mas agora, garante Heloisa, a hora e a vez é das “empoderadas” do slam, “que trazem temas inéditos sobre a experiência das jovens mulheres, que querem ser ouvidas, impactar e saber que são estruturalmente múltiplas, que articulam infinitas gamas, dicções e desejos de sua diversidade racial e étnica”, diz a pesquisadora. “Estamos vivendo uma clara insurgência poética.”

Questão racial no centro dos versos

Uma das temáticas recorrentes no slam é a questão racial. Dado o caráter combativo do gênero e a origem de seus representantes, em geral vindos da “quebrada”, assuntos como preconceito e territorialidade estão no centro dos versos.

“Acho que no caso da cena brasileira, temos questões históricas não resolvidas, de raça, gênero, classe, LGBTQIA+, intolerância religiosa, entre outras”, diz Midria, que em 2019 venceu o Slam das Minas SP. “Essas são as questões mais latentes e comuns, para as quais tantas e tantos poetas criam verdadeiras sínteses e análises poéticas-sociais.”

Para Luz Ribeiro, as temáticas se repetem porque no slam há a possibilidade do revide, da resposta. “Uma resposta a essa estrutura patriarcal e machista, racista, que está imposta. Por isso o slam é combativo, social”, diz a autora que venceu o Slam BR em 2016.

Mas tanto Luz quanto Midria ressaltam que, apesar do viés social dos versos dos slammers, o gênero é aberto como a poesia escrita, e ali “cabe de tudo”. “O movimento está atento e consciente a isso”, diz Midria. “Tanto que existem slams exclusivos para poesias de amor, como o Slam Racha Coração, organizado pela Sabrina Fernandes em São Miguel Paulista, e o Slam Chamego, no Rio Grande do Sul. A poesia pode ser sobre qualquer coisa, temos espaço no slam para expressar nossa agenda do dia, os temas que nos recortam e compõem nossas subjetividades.”

Poesia falada

A poesia oral está nos primórdios da grande tradição poética. Só que progressivamente o cânone ocidental acabou depreciando a oralidade. “Hoje, entretanto, há uma visível recuperação da oralidade, especialmente nas novas formas da poesia pública que vêm marcando a produção jovem entre nós”, diz Heloisa Buarque de Hollanda.

Heloisa Buarque de Hollanda: a hora e a vez das “empoderadas” do slam.

No entanto, esse limite entre o poema escrito — teoricamente com mais status artístico — e o falado não existe para as slammers. É comum que os versos nasçam de maneira inesperada — entre uma ou outra atividade corriqueira — e só então ganhem forma no papel, para que nada se perca no afã da inspiração.

“Depois de escritos e finalizados, termino de decorar. Mas normalmente os poemas já começam na fala, entendendo o que soa bem ou não aos ouvidos”, diz Midria. “Não faço poemas só para serem declamados, mas para serem lidos. Sou uma poeta oral, mas também acredito no processo de registro, que é o livro”, explica Luz, autora de Eterno contínuo.

Luz e Midria representam uma geração de “minas” que emerge da periferia para tomar um espaço na cultura e na literatura que por muito tempo lhes foi sonegado. Elas estão ao lado de diversos outros nomes, como Catherine Moreira, Bianca Chioma, Bell Puã, Kika Sena, Piê Souza, Renata Ravok e Ingrid Martins. Várias delas com livros publicados.

Mas por que tantas mulheres? Para Heloisa Buarque de Hollanda, a resposta é simples: “É uma bem-vinda consequência da tomada de palavra da quarta onda feminista que se formou logo após as ‘marchas de junho’ de 2013”.