A inspiradora vida de Marie Curie

A cientista franco-polonesa Marie Curie (1867-1934) é uma pioneira incontornável. Peça-chave no desenvolvimento dos estudos da radioatividade (termo que ela cunhou), e responsável pela descoberta dos elementos polônio e rádio, Madame Curie — como ficou conhecida — não só foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel, como se tornou a primeira pessoa a receber a mesma honraria duas vezes — em campos distintos, Física e Química.

Na primeira delas, em 1903, dividiu o pódio do Nobel de Física com seu marido, Pierre Curie (1859-1906), e com Henri Becquerel (1852-1908), cientista francês que observou o fenômeno da radioatividade no final do século 19. Na segunda ocasião, em 1911, Marie foi a Estocolmo sozinha para receber o Nobel de Química.

Essa jornada de sucesso, que também envolve uma história de amor e parceria intelectual (com final trágico, contado mais adiante), filhas geniais e constantes brigas com o status quo vigente, é narrada no filme Radioactive (2019), de Marjane Satrapi, disponível na Netflix.

A cientista Marie Curie ganhou o Nobel de Física em 1903 e o de Química em 1911.

Marie Curie e outras mulheres

A cinebiografia dirigida pela franco-iraniana, com Rosamund Pike no papel de Marie Curie, estreou no catálogo da Netflix Brasil recentemente. Baseado na graphic novel Radioativos — Marie & Pierre Curie, uma história de amor e contaminação, da norte-americana Lauren Redniss, o longa-metragem acompanha a trajetória da cientista franco-polonesa que encabeça a lista das “100 mulheres que mudaram o mundo”, organizada pela BBC History Magazine.

É curioso saber que, antes de filmar a história de Marie Curie, Marjane Satrapi — nascida no Irã, em 1969 — já tinha relatado sua própria jornada nas quatro partes da autobiografia em quadrinhos Persépolis.

Na narrativa gráfica, transformada em animação para o cinema no mesmo ano de 2007, Marjane narra os acontecimentos de sua vida após a Revolução Islâmica, em 1980, quando o uso de véu se tornou obrigatório nas escolas e a realidade das mulheres se transformou radicalmente no Irã.

A atriz Rosamund Pike interpreta Marie Curie no filme Radioactive.

Inspirada na cientista 

Mais recentemente, em outra obra de autoria feminina e com levada autobiográfica, a espanhola Rosa Montero discorreu sobre o luto no livro A ridícula ideia de nunca mais te ver (2019) — escrito depois de a autora perder seu companheiro de 21 anos, Pablo Lizcano, que morreu de câncer.

A inspiração para que Rosa conseguisse pôr para fora suas angústias foi o diário que Marie Curie escreveu após seu marido, Pierre, ser fatalmente atropelado por uma charrete em 1906 — três anos depois de eles terem vencido o Nobel de Física. Sobre a influência da cientista em sua narrativa, Montero anota:

A santa deste livro é Marie Curie. Sempre a achei uma mulher fascinante, algo com que quase todo mundo concorda, aliás, porque é um personagem incomum e romântico que parece maior do que sua própria vida.

“O luto é tema central do livro de Rosa Montero, que busca na Marie Curie e em outras obras as maneiras de descrever seus próprios sentimentos”, explica Gisele Eberspächer, do canal Vamos falar sobre livros?, a respeito de A ridícula ideia de nunca mais te ver.

“Como a autora escreve o texto enquanto está passando por isso, todos os outros temas que aborda são permeados por essa sombra, passam por esse filtro do sentimento muito específico que se vive quando se perde alguém”, completa a curitibana.

A espanhola Rosa Montero, autora de A ridícula ideia de nunca mais te ver. Foto: Asís G. Ayerbe

Representatividade

Já quando se fala na representatividade dessas figuras femininas que nadaram, ou nadam, contra a maré, Gisele acredita que o momento atual é positivo, sobretudo devido às ações do clube de leitura Leia Mulheres

“É um movimento de crítica bem importante: perceber que o catálogo e os lançamentos das editoras têm certa desigualdade (histórica, inclusive) e buscar balancear isso”, pondera a professora de alemão e literatura. “Claro que ainda temos problemas nisso, mas é interessante acompanhar esse tempo de discussão e mudança.”

Aos que desejam conhecer melhor alguns nomes relevantes da História, Gisele aponta três títulos voltados principalmente o público mais jovem:

Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil, de Duda Porto de Souza e Aryane Cararo, As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo, de Rachel Ignotofsky, e Mulheres na luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade, de Marta Breen e Jenny Jordahl.

Por trás das câmeras

Voltando à história de Marie Curie, é preciso salientar que nem tudo são flores. Maria Skłodowska nasceu em novembro de 1867, cercada pelo clima hostil de uma Varsóvia pertencente ao Império Russo.

Filha dos professores Bronisława (mãe) e Władysław Skłodowski (pai), a caçula de cinco irmãos sofreu um bocado até se tornar a mundialmente conhecida Marie Curie — em seu país natal, por exemplo, não pôde frequentar a universidade, proibida para mulheres à época.

A mudança de ares começa em 1891, quando Maria desembarca em Paris e gradua-se em matemática e física na Sorbonne. Para arcar com os custos de vida, dedicava-se aos estudos de dia e lecionava à noite.

Na capital francesa, com a vida mais bem direcionada, casa-se com Pierre em 1895 e começa a jornada que terminaria com os sucessos — e a morte precoce do marido — já narrados.

Família de sucesso e consequências

Além das importantes conquistas profissionais, o casal teve as filhas Irène e Ève. A primeira, representada a certa altura por Anya Taylor-Joy no filme Radioactive, também se destacou no mundo da ciência: ao lado do marido, Frédéric Joliot, ganhou o Nobel de Química de 1935.

Apesar de uma vida intelectualmente rica, com pesquisas que tiveram consequências positivas na medicina mas também contribuíram para a produção de armas de guerra, Marie Curie foi vítima de sua própria descoberta.

Após passar anos na companhia de materiais radioativos, sem ter muita noção de como os elementos poderiam ser extremamente prejudiciais à saúde, a cientista morreu em 1934, aos 66 anos, vítima de exposição prolongada à radiação. Até hoje, os pertences que deixou só podem ser manipulados com roupas protetoras.

Compre os livros na loja da Bienal Rio

Radioativos — Marie & Pierre Curie, uma história de amor e contaminação
Lauren Redniss
Trad.: Antônio Xerxenesky
Quadrinhos na Cia.
208 págs.

Persépolis — Completo
Marjane Satrapi
Trad.: Paulo Werneck
Cia. das Letras
352 págs.

A ridícula ideia de nunca mais te ver
Rosa Montero
Trad.: Mariana Sanchez
Todavia
208 págs.