A influência de Carolina Maria de Jesus

Um dos maiores fenômenos editoriais do Brasil, Quarto de despejo — Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, permanece influente mais de 60 anos após seu lançamento. Isso porque a obra — e tudo que a envolve: sua gênese, recepção e carreira — continua fascinante. Além de tudo, segue icônica entre os escritos literários produzidos por negros no Brasil.

Lançado em agosto de 1960, Quarto de despejo foi “descoberto” pelo jornalista Audálio Dantas, que ao fazer uma reportagem sobre a favela do Canindé, em São Paulo, encontrou Carolina, “alguém que tinha o que dizer”, conforme escreveu em texto publicado pela primeira vez em 1993 e reproduzido na edição comemorativa de 60 anos da obra, publicada pela Ática em 2020.

“A história que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história — a visão de dentro da favela”, escreveu Dantas, morto em 2018.

Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo — Diário de uma favelada.

Linguagem arrebatadora

Iniciado em 1955, o diário de Carolina é escrito em uma linguagem crua e arrebatadora. Logo no início ela fala sobre o aniversário da filha Vera e que não tem dinheiro para um presente. O jeito foi arranjar um sapato no lixo e dar uma “arrumada” nele para que a menina não ficasse sem uma lembrança na data especial.

Os relatos do livro caíram como uma bomba no Brasil dos anos 1960, quando as favelas ainda eram uma novidade a ser estuda. Trechos dos diários foram publicados em duas reportagens, em 1958, no jornal Folha da Noite e na revista O Cruzeiro. Depois, com a edição dos textos feita por Audálio Dantas, que acertou questões de pontuação, mas manteve a grafia original das palavras escritas por Carolina, Quarto de despejo foi publicado pela editora Francisco Alves. A tiragem inicial de 10 mil exemplares se esgotou em uma semana.

Diálogo com Françoise Ega

O livro também reverberou fora do país. A edição italiana, em 1962, teve apresentação de Alberto Moravia. Mas o livro não foi percebido apenas como mero exotismo. Esteticamente, Carolina e seus diários também impactariam.

No começo dos anos 1960 a revista Paris Match publicou um perfil da escritora, juntamente com trechos de seu livro. A antilhana Françoise Ega, que emigrara para Paris, leu a reportagem e ficou impressionada. Foi o gatilho para que também escrevesse uma obra muito potente, na forma e no conteúdo. Cartas a uma negra, que acaba de sair, em edição da Todavia, é uma espécie de obra-irmã de Quartos de despejo. O formato epistolar, endereçado à escritora brasileira, guia uma narrativa sobre a vida e as dificuldades das imigrantes antilhanas que trabalham como domésticas na França.

“As observações sobre a vida na periferia, o retrato dos seus habitantes, a materialidade da linguagem literária forjada em condições tão desfavoráveis, tudo isso teve uma influência fundamental no projeto literário de Ega, diz Vinicius Carneiro, que divide com Mathilde Moaty a tradução de Cartas a uma negra para o português.

“Em segundo lugar, temos que levar em conta a importância da figura exemplar de Carolina. Ela representa para Ega a afirmação de uma aspiração, a de ser escritora: uma mulher negra de uma favela brasileira que é autora de livros publicados foi o espelho que Ega precisava para assumir-se escritora.”

A linguagem de Carolina Maria de Jesus é crua e arrebatadora.

Duas histórias

Nascida em 1920, em Morne-Rouge, na ilha da Martinica, Françoise Ega cresceu em um meio modesto. Na França, ela acumulou os papéis de mãe, trabalhadora doméstica e escritora, tendo produzido três romances e um pequeno conto natalino, Le pin de magneau. Seu primeiro livro publicado foi Le Temps des madras, lançado em 1966 e reeditado em 1988.

Os dois outros romances, Cartas a uma negra e L’Alizé ne soufflait plus, também publicados pela L’Harmattan, são póstumos, de 1978 e 2000, respectivamente. Cartas a uma negra, assim como Quarto de despejo, apresenta uma escrita simples, mas cativante e muito fluente. Os capítulos (cartas) são curtos e têm como pano de fundo o cotidiano de exploração e violência enfrentado pelas antilhanas ao chegarem à França. Assim como Quarto de despejo, o livro de Ega tem muitos trechos emocionantes.

Carolina e sua história certamente foram determinantes para Ega escrever seu livro. Mas havia algumas diferenças nas histórias das duas autoras, ainda que ambas explorassem suas biografias na literatura que escreviam. Françoise Ega, diferentemente de Carolina Maria de Jesus, nunca viveu na pobreza, apesar de ser uma pessoa humilde.

“A princípio, Françoise Ega não necessitava do trabalho de faxineira da mesma maneira que suas irmãs antilhanas, que aceitavam condições precárias de trabalho para sobreviver”, diz Carneiro. “Assim, pode-se afirmar que o impulso primeiro de Ega foi querer contar aquelas histórias de luta, opressão e preconceito vividas pelas imigrantes originárias da América. Para tanto, ela começou a trabalhar como faxineira, pois só assim poderia observar, sentir e contar a exploração de toda uma comunidade.”

Olhar de dentro

Esteticamente, no entanto, as duas escritoras não ficaram restritas a um gênero literário, incorporando em seus relatos características tanto dos romances de memórias, elementos do conto, da poesia e da autoficção, quando essa “tendência” ainda era pouco comentada no meio literário.

Mas para Vinícius Carneiro, é o “olhar de dentro” que aproxima mais as duas autoras. Ou seja, negras que falam sobre suas vidas em um ambiente hostil. O que o próprio Audálio Dantas percebeu assim que começou a ler os cadernos de Carolina na favela do Canindé, nos anos 1950.

“A aproximação mais marcante entre as duas autoras é a perspicácia criativa do olhar de dentro, capaz de descortinar subjetividades e expor tensões, conflitos e sensibilidades historicamente ausentes da tradição literária francesa e brasileira”, diz Carneiro.

Atual e influente

Ega, apesar de endereçar suas cartas a Carolina, nunca a conheceu. É possível que também nem tenha tido acesso aos livros da colega brasileira. O que só reforça a importância da obra de Carolina. Alguns poucos trechos do que escreveu foram capazes de dar o start para a escrita em uma autora que estava “adormecida”.

Efeito que se reverberou para muitas e muitas mulheres negras que leram os comoventes diários de Carolina Maria de Jesus. Estudada com frequência na universidade, sua literatura abriu caminhos para que a escrita de outras autoras negras fosse valorizada, tal como Conceição Evaristo, Cidinha da Silva e as 180 mulheres que compõem a coletânea organizada pela Flup neste ano, que traz o singelo nome de Carolinas.

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Quarto de despejo — Diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
Ática
268 págs.

Cartas a uma negra
Françoise Ega
Todavia
256 págs.