A incansável Ruth Rocha

Nem a pandemia para Ruth Rocha. Aos 90 anos (recém-completados em 2 de março), a escritora tem aproveitado o período de isolamento social para criar. No final de 2020, lançou o Almanaque do Marcelo e da turma da nossa rua, em coautoria com sua filha, Mariana Rocha.

Neste começo de 2021, já escreveu outro livro, que ainda nem mostrou para sua editora. “É uma coisa bem diferente”, diz a autora por telefone de sua casa no Jardim Paulista, em São Paulo. “Chama-se O grande livro dos macacos e fala sobre a evolução do homem. Comecei a escrever esse livro há 15 anos. Mas não foi para frente… Na pandemia o resgatei e terminei de escrevê-lo.”

Ruth Rocha: “Autorizei a adaptação do Marcelo para teatro, mas para TV nunca tinha acontecido. Agora apareceu essa turma animada com o livro e a história e acabamos entrando em acordo”. Foto: Nagila Rodrigues

E o ano começou com outra novidade. O maior sucesso de Ruth, Marcelo, marmelo, martelo, vai virar série de TV. Os direitos da obra foram adquiridos pela ViacomCBS. A produção, em parceria com a Coiote Produções, deve ter distribuição mundial. “Estamos na primeira fase de desenvolvimento com o grupo de roteiristas e diretores”, diz Margarida Ribeiro, produtora da Coiote. “A direção será de Duda Vaisman e Calvito Leal, com consultoria de Flávia Lins e Silva. Os roteiristas são Thamires Gomes, Alice Gomes e Tom Hamburger.”

A estreia nas telas

Inexplicavelmente essa é a primeira vez que o best-seller de Ruth vai às telas, em um projeto de grande repercussão e investimento. Lançado originalmente em 1976, Marcelo, marmelo, martelo é um dos maiores sucessos editoriais do país, com mais de 70 edições e 20 milhões de exemplares vendidos. “Autorizei para teatro, mas para TV nunca tinha acontecido. Agora apareceu essa turma animada com o livro e a história e acabamos entrando em acordo”, diz Ruth.

Ela já leu alguns roteiros prévios e gostou do que viu. “Sempre fica um certo receio com adaptações, porque há muitas mudanças. Mas fiquei contente com o que li. Não mudaram muita coisa.” Margarida explica que ainda não há definição sobre onde será veiculada a série nem sobre o número de episódios ou futuras temporadas, mas a expectativa é que o sucesso do livro se reverta para a TV. “Marcelo é um personagem muito querido pelo público e que atravessou gerações. Acreditamos que esse formato, nessa plataforma, terá um alcance gigante de público, seguindo o sucesso literário da nossa querida Ruth Rocha.”

Ruth Rocha lendo para crianças: “Antigamente, havia o conceito de que as crianças eram apenas para ser vistas. Isso mudou. Elas precisam ser ouvidas. As crianças alargaram os horizontes”.

Isolada, mas não sozinha

“Não estou me sentindo sozinha”, diz Ruth sobre o isolamento social na pandemia. Ela é uma privilegiada. Tem quatro empregadas, que se revezam nos cuidados com seu bem-estar e a organização da casa.

“Como gosto muito delas e temos amizade, elas me fazem companhia, conversamos sobre várias coisas… e assim me distraio. Também recebo muitos telefonemas, de amigos e parentes.”

A irmã Rilda, de 92 anos, é outra presença constante. Diariamente às 15h30, o telefone toca. Mas o papo entre as irmãs não é sobre amenidades da vida em isolamento. O horário, na verdade, é reservado para leituras em dupla. “Lemos Guerra e paz e vários outros livros assim, pelo telefone. Esses dias ela me mandou a foto com todos os títulos que lemos. São mais de quatro mil páginas.” Ruth e Rilda têm formação em sociologia, e livros de não ficção, como os de economia, também estão sempre na pauta. Mas Ruth faz questão de lembrar de autores hoje clássicos que leu e a influenciaram, como Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez e Gustav Flaubert.

Formação

A família, aliás, está no centro da formação da autora. A mãe, Esther, lia para ela as primeiras histórias. Formada em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Ruth foi aluna do historiador Sérgio Buarque de Holanda. E por 15 anos, atuou como orientadora educacional do Colégio Rio Branco.

A partir de 1972, começou a escrever sobre educação para a revista Cláudia e, posteriormente, para a revista Recreio. Desde então, não parou mais e criou clássicos como O reizinho mandão, incluído na “Lista de Honra” do prêmio internacional Hans Christian Andersen, o “Nobel” da literatura infantojuvenil.

Em mais de 50 anos de carreira, vendeu 25 milhões de exemplares. Uma trajetória marcada por 213 livros lançados — 140 só pela Editora Salamandra, onde hoje é autora exclusiva —, que incluem contos, crônicas e traduções de obras clássicas para o português. “Só penso em criança, literatura e educação”, diz, resumindo a própria vida.

Ruth Rocha
Ruth Rocha na redação da revista Recreio, nos anos 1970, onde começou a escrever sobre o universo infantojuvenil.

A influência de Monteiro Lobato

A grande influência de Ruth foi Monteiro Lobato. Sua vida mudou quando leu Reinações de Narizinho e Memórias de Emília. “Ainda hoje me pego lendo os livros dele. Gostava tanto da Tia Anastácia, pois foi ela quem criou a Emília.”

Sobre a reavaliação da obra do autor proposta por vários especialistas, que a consideram em grande parte racista, ela admite que há sim pontos que fica evidente o racismo de Lobato, principalmente na literatura adulta e nas cartas, mas que não reescreveria os livros do escritor.

“É uma obra importantíssima. Eu não a reescreveria, mas tem que explicar para a criança o contexto. Porque o racismo é um desastre. Um verdadeiro horror.”

O humor nas histórias

Com o autor que é considerado fundador da literatura para crianças no Brasil, diz que aprendeu a colocar humor nas histórias. No entanto, Ruth desconversa sobre a razão do sucesso de sua literatura. “Não tenho a menor ideia.” Mas logo em seguida, arrisca uns palpites. “Isso às vezes soa como uma falta de modéstia, mas não é. Meus livros são bons. Bem escritos, com boas ideias. E tratam de assuntos que não costumam aparecer muito na literatura infantojuvenil.”

O que é verdade. Ela já tratou de temas como egoísmo, preconceito, direitos das crianças e dos adultos. Sua versão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, feita em parceria com Otávio Roth, teve lançamento na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, em 1988. Ruth acompanha à distância a produção atual da literatura infantojuvenil no Brasil. E diz não saber qual a fórmula para se escrever um bom livro infantil. “Não sei dar conselhos.” Mas sugere que a resposta esteja nas próprias crianças. “Antigamente, havia o conceito de que elas eram apenas para ser vistas. Isso mudou. Elas precisam ser ouvidas. As crianças alargaram os horizontes.”

>>> Assista à mesa no Café Literário em homenagem aos 50 anos de carreira de Ruth

Para conhecer Ruth Rocha

Marcelo, marmelo, martelo

Na história, um camaleão tenta mudar o tempo todo para agradar os outros, preocupado com o que pensariam dele. No fim, o livro traz a lição de que “quem não agrada a si mesmo, não agrada a ninguém”.

O reizinho mandão

A história conta como o filho mimado e bastante autoritário de um monarca cria leis absurdas para seu reino. O autoritarismo do herdeiro chega a tal ponto que faz seu povo perder a voz.

Bom dia, todas as cores!

Na história, um camaleão tenta mudar o tempo todo para agradar os outros, preocupado com o que pensariam dele. No fim, o livro traz a lição de que “quem não agrada a si mesmo, não agrada a ninguém”.

Declaração universal dos direitos humanos

Na adaptação, com ilustrações de Otávio Roth, Ruth apresenta o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos, para que crianças possam entender a trajetória que levou à assinatura da carta, logo após a Segunda Guerra Mundial.

Ninguém gosta de mim?

A história aborda os medos de não ser amado, de ser abandonado ou trocado por outra pessoa, e faz parte da série “Os medos que eu tenho”, feita em parceria com a psicóloga Dora Lorch. Alguns dos receios mais comuns das crianças são discutidos na série, como o temor de fantasma ou de se machucar.