A hora e a vez dos audiolivros

A psicóloga baiana Mara Santos, de 38 anos, se pegou gargalhando ao escutar uma cena do livro Cartas de amor de Paris. Ela ouviu a história autobiográfica de um amor interrompido, escrita pela francesa Samantha Vérant, no formato de audiolivro, e achou a experiência “incrível”.

“A maneira com que a narradora leu a piada me fez rir muito. Acho que não me divertiria tanto se eu estivesse lendo a história. A emoção vem mais rápido”, diz Mara, que já foi assinante de duas plataformas que oferecem audiolivros. Para ela, uma “vantagem” do áudio sobre o livro escrito “é a carga dramática” contida na narração. “As pausas, as entonações, tudo já prepara o ouvinte para o que vem a seguir.”

Para a psicóloga Mara Santos, a “vantagem” do áudio sobre o livro escrito “é a carga dramática” contida na narração.

Mara, que também é leitora dos livros tradicionais (impressos), é um dos milhares de brasileiros que têm se deixado seduzir pelos audiolivros, também conhecidos como audiobooks. Um hábito que há décadas “pegou” na Europa e nos Estados Unidos e que só recentemente começou a se popularizar no Brasil. No exterior, o audiobook passou por diversos formatos, da fita K7 ao CD, até chegar às nuvens do streaming.

No Brasil, os últimos dois anos têm sido de expansão desse formato. Em um período em que o mercado editorial passa por uma de suas piores crises, o livro narrado conquista mercado em ritmo acelerado. As suecas Storytel e Word Audio, gigantes globais do setor, aportaram por aqui com catálogos imensos, que incluem a saga de livros mais vendida na história, os sete volumes de Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling. Já a brasileira Ubook disponibiliza mais de 20 mil títulos em seu catálogo. As editoras Intrínseca, Record e Sextante também se uniram para formar a AutiBooks, que reúne parte do acervo das três casas.

Em um país com mais smartphones do que habitantes (são cerca de 234 milhões de telefones, segundo a 31ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia, da Fundação Getúlio Vargas), o audiolivro tem um mercado imenso e praticamente intocado.

Praticidade e variedade

A Tocalivros, plataforma brasileira com mais de 2 mil livros no acervo, anunciou que mesmo com a pandemia conseguiu quadruplicar seu faturamento em 2020. A empresa sentiu positivamente o aumento do consumo dos produtos digitais. “Os aplicativos facilitaram tudo. A pessoa só entra, aperta o play e, quando sai, tudo está salvo do ponto onde parou. Isso facilitou muito”, diz Ricardo Camps, que dirige a Tocalivros com o irmão Marcelo.

Os irmãos Ricardo e Marcelo Camps, da Tocalivros: tecnologia para facilitar muito a vida do leitor.

Praticidade parece ser a palavra-chave quando se fala na nova onda dos audiolivros. A coordenadora pedagógica Maíra Marques de Oliveira, de 26 anos, também é uma “leitora-ouvinte”. Ela mora em Caraguatatuba, no litoral de São Paulo, e utiliza o tempo que está em trânsito, indo para o trabalho, para conhecer novas histórias.

Maíra acaba de ler o romance Perigosa amizade, primeiro de uma série de livros escritos por Gisela Bacelar, que traz uma história sobre dilemas da juventude. “Gostei muito da narração da Débora Olivieri, tem uma ótima entonação. Ela soube transmitir a emoção do livro.”

Leitora eclética, Maíra pretende ler/ouvir em breve O menino do engenho, clássico regionalista do paraibano José Lins do Rego, e algum título de Clarice Lispector, “que é ótima”. “Quero experimentar outros gêneros”, diz.

A variedade de gêneros também é o que dá o tom neste negócio. Diferentemente do ramo de editoras, segmentado por gêneros literários ou até mesmo linhas de pensamento, as plataformas de audiolivros são verdadeiras agregadoras de títulos, editoras, autores e gêneros — indo da autoajuda a Guimarães Rosa, dos relatos de guerra aos romances young adult.

Assim como os clubes de livros, a maioria das plataformas aposta em planos para cativar clientes — nenhuma das empresas citadas vende livros avulsos. É possível fazer assinaturas mensais (de R$ 15 a 30) ou anuais (de R$ 150 a 200). Mas nem todos os planos dão acesso ilimitado ao catálogo, alguns restringem a um ou dois títulos por mês, dependendo do valor. 

Como se faz?

No Brasil, o mercado ainda está se formatando, mas os investimentos seguem altos em estúdios próprios de gravação e encomendas de obras originais. O escritor e jornalista Edney Silvestre já vendeu quatro trabalhos para o formato — três peças de teatro e um conto, todos já gravados e disponíveis na Storytel, a mesma empresa que detém todos os títulos de Agatha Christie.

Edney Silvestre: “Eu não tinha noção de como era trabalhosa a produção para transformar uma obra em audiolivro”.

As peças foram escritas para o teatro e compõem uma trilogia que começa no século 19, com a histórica Sarah em São Paulo (sobre a visita da atriz francesa Sarah Bernhard à capital paulista em 1886), a contemporânea Casa comigo (passada no dia da eleição presidencial brasileira, em 2002) e a futurística O brilho por trás das nuvens (cuja história transcorre em 2042).

“Eu não tinha noção de como era trabalhosa a produção para transformar uma obra em audiolivro”, diz Silvestre, que em maio lança novo romance, Amores improváveis, agora pela Globo Livros, após anos na Record. Acostumado a narrar os próprios textos nas matérias que assina há décadas na TV Globo, ele também participou das peças. “Eu gravava aos sábados, que era quando tinha tempo. Mas a equipe de atores se reunia sem mim para gravar”, conta.

Foi a primeira vez que a Storytel apostou em textos de teatro, até então nunca tinha disponibilizado o gênero em seu catálogo mundial. Casa comigo vai ser encenada no teatro, com direção da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. “Quando a pandemia deixar”, segundo o escritor.

Silvestre já tinha tido uma experiência com o audiolivro quando seu maior sucesso, o romance Se eu fechar os olhos agora, que ganhou os prêmios Jabuti e São Paulo em 2010 e virou minissérie da Globo em 2019, foi adaptado para o formato, com narração de Antonio Fagundes. Porém, segundo o autor, naquela época o formato ainda não tinha se estabelecido e o produto não vingou como o esperado.

Para transformar um texto em audiolivro, há várias etapas, começando pela contrato com a editora detentora dos direitos da obra. Depois, uma equipe faz uma pré-análise do livro para definir quem será o narrador, qual é o estilo da leitura, que tipo de voz e personalidade se encaixa no perfil da obra. Em alguns casos, são necessários vários narradores e trilha sonora. Depois da gravação, tem a edição e a remasterização. E nesse meio tempo, assim como acontece nos livros escritos, há os processos de revisão.

Como no caso das dublagens do cinema, vozes conhecidas do grande público, de personalidades famosas, também podem atrair mais “leitores”. “Se uma pessoa que eu admiro estivesse fazendo a narração de um livro, certamente isso despertaria minha curiosidade. Mas o mais importante seria o conteúdo do livro. E, lógico, a pessoa tem que narrar bem”, diz a psicóloga Mara.

“A narração influencia muito”, explica Ricardo Camps, da Tocalivros. “Temos, por exemplo, narrações com o Fábio Porchat que vão muito bem, é um nome muito conhecido. Mas isso não é uma coisa certeira, porque ainda depende muito mais do livro e da obra. Não adianta chamar o Papa para narrar um livro que não tem nada a ver com o público dele. Essa escolha de vozes é muito tênue.”

Há alguns anos, discutia-se o formato tradicional do livro, que em pouco tempo seria preterido pelos e-books, o que não aconteceu. E agora, quando mais um formato toma corpo no mercado editorial?

“O livro físico sempre vai existir. Ele é quase um bem para a pessoa que o compra. O e-book muitas vezes é um consumo mais rápido, para fazer uma consulta, por exemplo. O audiolivro tem outro perfil, de escutar e não necessariamente ler. O leitor anda por esses três formatos e vai descobrindo o que faz mais sentido. Nenhum deles é substituível”, completa Camps.