A força dos prêmios literários

Até outubro de 2018, Itamar Vieira Junior era apenas mais um nome no imenso mar de escritores anônimos que compõem a fértil, mas pouco lida, literatura brasileira contemporânea. Naquele ano, o autor baiano venceu o Prêmio LeYa com o romance Torto arado. Além de um polpudo prêmio em dinheiro (50 mil euros) e a publicação de seus originais pela editora portuguesa que promove o concurso, Itamar teve sua vida literalmente mudada.

Desde então, ele já venceu outros dois dos mais concorridos concursos literários do país — Jabuti e Oceanos — e se tornou um best-seller, com mais de 100 mil exemplares vendidos. Ganhou recentemente uma coluna na Folha de S. Paulo e foi entrevistado no icônico Roda Viva, onde poucos escritores brasileiros de ficção pisaram.

Itamar Vieira Junior: “O prêmio mudou a minha carreira pela sua importância: o livro foi publicado por um grande grupo editorial português e teve ampla repercussão na imprensa”.

Para além da qualidade literária de seu livro, que conta uma história de redenção no sertão baiano de forma poética, Itamar tem certeza de que se não tivesse recebido o Prêmio LeYa, talvez Torto arado ainda “estivesse na gaveta”. “O prêmio mudou a minha carreira pela sua importância: o livro foi publicado por um grande grupo editorial português e teve ampla repercussão na imprensa do país.”

Esse é um dos exemplos da força que os prêmios literários têm. A falta de oportunidade para apresentar o romance a uma editora que fizesse o livro circular foi o que moveu Itamar a inscrever seus originais em um concurso — que muitas vezes pode significar um “atalho” para a publicação e eventualmente o sucesso. “Moro fora do eixo Rio-SP, então tudo se torna mais difícil”, diz o autor que vive em Salvador.

“Já participei de outros concursos. Meus dois livros anteriores foram publicados graças a um concurso e a um edital de literatura”, diz, referindo-se aos livros de contos Dias e A oração do carrasco, ambos publicados por editoras pequenas da Bahia. Em junho a editora Todavia publica um novo livro do autor, Doramar ou a Odisseia, uma coletânea com contos inéditos e histórias já publicadas.

Cida Pedrosa: “O prêmio me trouxe muita visibilidade, fez com que minha literatura fosse lida pelo Brasil todo e alavancou minha carreira”.

Cauda longa

Marcos Marcionilo é o atual curador do prêmio mais longevo do Brasil, o Jabuti. Para ele, a chancela de um prêmio cria o que chama de “cauda longa”. “Não são efeitos visíveis de imediato, mas existem”, diz.

Como exemplo, cita a poeta Cida Pedrosa, que em 2020 venceu as categorias Poesia e Livro do Ano do Jabuti, com Solo para vialejo. Cida, que atualmente é vereadora do Recife, tem uma carreira consolidada na cena literária pernambucana, mas passou a ser lida com mais atenção após a surpreendente vitória na categoria mais importante do Jabuti, a do Livro do Ano. E com uma seleta de poesia, que costuma ser o patinho feio da literatura, em geral com menos venda do que a prosa.

“Tenho uma vida literária de 40 anos, muito sólida em Pernambuco”, diz a poeta, que nasceu em Bodocó, no interior do estado. “Mas o prêmio me trouxe muita visibilidade, fez com que minha literatura fosse lida pelo Brasil todo e alavancou minha carreira.” Pelos dois prêmios, ela ganhou R$ 105 mil (R$ 5 mil da categoria Poesia e R$ 100 pelo Livro do Ano). Filiada ao PCdoB, dou 10% da premiação ao partido.

É a cauda longa a que se refere o curador do Jabuti. “O autor passa ser mais percebido pela imprensa, passa a ser uma referência para leitores, pois sua obra passou pelo crivo de especialistas, e as vendas também aumentam”, explica Marcionilo, que fez carreira no mercado editorial, à frente da Parábola Editorial, especializada em obras de linguística.

“Estava claro para mim que Solo para vialejo era um bom livro. Tenho clareza de quando escrevo coisas bacanas”, diz Cida. E o livro começou a dar pistas que iria longe antes de ser editado. “O editor Sidney Rocha, da Cepe, me disse: ‘Cida, Solo para vialejo tem cara de ser um livro premiado’”.

Quando o livro foi lançado, Raimundo Carrero, uma referência da literatura pernambucana, teve a mesma impressão e escreveu isso em uma resenha. E deu no que deu. “Mas sou muito tranquila em relação a essas coisas, porque sei que isso é passageiro. É um reconhecimento, mas só faz sentido quando você tem um trabalho sólido construído.”

Henrique Rodrigues: “O que um autor inédito realmente gostaria de ganhar? A resposta, de pronto, foi: não necessariamente dinheiro, mas a publicação numa boa editora”.

Inéditos por grande editora

Em 2002, o escritor carioca Henrique Rodrigues era um autor iniciante. E foi com a cabeça de quem estava começando a trilhar seu caminho literário que ele pensou no formato que mais tarde daria a cara para o Prêmio Sesc de Literatura.

A ideia era criar um prêmio literário nacional. Mas não caberia criar mais um que premiasse autores já consagrados, e sim um concurso que estivesse de acordo com a linha de trabalho do Sesc, voltada para o acesso à cultura.

“Pensei com a cabeça de autor iniciante que era”, diz Henrique, que segue trabalhando no Sesc, agora como um autor consolidado na cena literária. “O que um autor inédito realmente gostaria de ganhar? A resposta, de pronto, foi: não necessariamente dinheiro, mas a publicação numa boa editora e a possibilidade de iniciar uma carreira. Daí fizemos contato com a Record, cuja editora era a Luciana Villas-Boas, que de pronto abraçou a ideia, uma vez que o Sesc poderia fazer aquilo que nenhuma editora tem condições: descobrir, no oceano de inéditos no país, uma obra que merecesse o selo da editora.”

O Prêmio Sesc está completando 18 anos em 2021. Longevidade que, para Rodrigues, indica que “ele está consolidado como formato, conceito e política de ação”. Desde a primeira edição, vencida pelo paranaense Marco Aurélio Cremasco, foram mais de 30 autores premiados, nas categorias Romance e Conto. Claro, vários deles ficaram pelo caminho, mas muitos “vingaram” e hoje seguem publicando e participando ativamente da vida literária do país.

“Olhando agora esses mais de 30 escritores seguindo estrada, percebo que conseguimos, de forma criteriosa e democrática, dar espaço para a tão falada diversidade cultural brasileira, expressa justamente nas diferentes literaturas que esses escritores vêm produzindo”, diz Rodrigues. Ele cita André de Leones, Luisa Geisler e Juliana Leite como “autores de diferentes dicções que estão seguindo suas trajetórias, com uma produção consistente e regular”.

Selma Caetano: “Num país como o Brasil, de pouco incentivo às artes, à literatura e à cultura em geral, de poucas vendas literárias, será certo dizer que o autor é movido pelo valor financeiro dos prêmios”.

Um bom dinheiro

No Brasil, os prêmios literários acabaram ganhando grande importância por ajudar os autores em duas frentes essenciais: a publicação e a remuneração. Apesar de o número de editoras independentes e de pequeno porte ter dado um salto grande no país, autores inéditos ainda desejam ser publicados por grandes casas. O que o número de inéditos inscritos no Prêmio Sesc deste ano confirma: são 1.688 livros de todas as regiões do Brasil.

Mas nas grandes editoras, que não têm capacidade de ler e separar tudo que chega, ainda impera o velho esquema das “indicações”. O autor estabelecido indica um pupilo, e a fila anda.

Por outro lado, como as vendas de livros são muito pequenas no país, os prêmios acabam “suprindo”, ainda que de forma bem restrita, a questão econômica.

“Num país como o Brasil, marcado por profundas desigualdades sociais, de pouco incentivo às artes, à literatura e à cultura em geral, de poucas vendas literárias, será certo dizer que o autor é movido pelo valor financeiro dos prêmios”, diz Selma Caetano, coordenadora e curadora do prêmio Oceanos, que distribui R$ 250 mil em premiação — R$ 120 mil para o primeiro colocado, R$ 80 mil para o segundo e R$ 50 mil para o terceiro.

O caso de Cristovão Tezza, escritor catarinense, radicado em Curitiba, é emblemático nesse sentido. Depois do estrondoso sucesso do romance autobiográfico O filho eterno, que ganhou os mais importantes prêmios do país e virou best-seller, sendo adaptado para o cinema, Tezza resolveu “virar” escritor em tempo integral. Largou o estável cargo de professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e passou a se dedicar somente à literatura.

Marcos Marcionilo: “O autor passa a ser mais percebido pela imprensa, passa a ser uma referência para leitores, pois sua obra passou pelo crivo de especialistas, e as vendas também aumentam”.

Grandes autores

O Oceanos foi criado em 2003, com o nome do antigo patrocinador, a empresa portuguesa Portugal Telecom. E na época premiava apenas autores brasileiros. A partir de 2007, passou a contemplar livros de língua portuguesa, não apenas de autores nacionais, mas desde que publicados aqui. Em 2014, com a saída da Portugal Telecom do Brasil, o prêmio passou a ser patrocinado pelo Banco Itaú, pelo Itaú Cultural e pelo Ministério da Cultura Português.

Foi então que trocou de nome, passando a se chamar Oceanos — Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa. Também estendeu as inscrições para qualquer país do mundo, desde que os livros sejam originalmente escritos em língua portuguesa.

Tornou-se assim um prêmio transnacional na estrutura e na dinâmica de avaliação, com júris compostos por especialistas de países do continente africano, Brasil e Portugal. Em sua estrutura e importância, assemelha-se muito ao Man Booker Prize, a mais prestigiosa premiação do Reino Unido.

No rol de vencedores, escritores estabelecidos nas cenas literárias de seus países, como Chico Buarque, Dalton Trevisan, Bernardo Carvalho, Gonçalo M. Tavares, Milton Hatoum, José Luis Peixoto e Valter Hugo Mãe. Como se pode ver, um prêmio ainda dominado por nomes do Brasil e de Portugal.

“Hoje, nosso atual desafio é tornar o prêmio um instrumento de incentivo à produção literária também dos países africanos de língua portuguesa, onde o alcance ainda é mais restrito e as literaturas nacionais ainda são bastante recentes”, diz a curadora Selma Caetano.

Para ela, a importância dos prêmios literários extrapola a questão econômica e o que move o escritor a buscar as premiações é, antes de tudo, “o mesmo fator que o move a escrever: resistência contra o pouco caso do Brasil com o livro, que continua acessível a uma minoria, e contra o cerceamento da educação”.

A grande sensação da literatura brasileira dos últimos anos, Itamar Vieira Junior, mesmo com tanta exposição, continua “fiel ao meu projeto literário”. “A única mudança que o romance me trouxe foi a falta de tempo para seguir mais livre com os meus projetos literários”, diz. “Há grande demanda por entrevistas, sessões sobre o livro e outros eventos literários. Mas continuo perseguindo o que me toca na literatura.”