A ficção escancara a violência contra mulher

Os números assustadores de violência de gênero mostrados pela 14ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado no primeiro semestre de 2020, mostram que o Brasil é um dos lugares mais perigosos do mundo para uma mulher viver.

Dentre todas as estatísticas, talvez a que mais choque é em relação ao estupro: a cada 8 minutos uma mulher é violentada no país — uma piora em relação ao ano anterior, quando esse tipo de violência acontecia de 11 em 11 minutos.

Esse cenário chocante tem reverberado na literatura brasileira. É sobre estupro e feminicídio que tratam os romances Vista chinesa, de Tatiana Salem Levy, e Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo. Ainda que sejam bem diferentes entre si, os dois livros convergem a partir da tragédia de várias mulheres, do Rio de Janeiro ao Acre.

No livro de Tatiana, lançando no começo deste ano pela Todavia, a autora parte de uma história real, vivida pela diretora de TV Joana Jabace, que em 2014 foi estuprada enquanto caminhava próximo à Vista Chinesa, um mirante em estilo chinês localizado no bairro Alto da Boa Vista, dentro da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Tatiana Salem Levy, autora de Vista chinesa.

História real

Com o consentimento da amiga, Tatiana reconstrói literariamente o fato por meio da personagem Júlia, que é arrastada para dentro da mata por um homem pouco depois de começar seus exercícios.

No livro, Júlia narra seus momentos de terror através de uma carta endereçada aos filhos. De maneira fragmentada, que em muitos momentos mistura delírio e realidade, a escritora também embaralha os sentimentos da protagonista, que vão do desejo de esquecimento à lembrança de um episódio que não pode ser esquecido, para o bem e para o mal.

Tatiana não esconde nada do leitor. Logo no início da narrativa, Júlia descreve a cena que a acompanhará pelo resto de seus dias.

“No mesmo instante em que meus pés deixaram o asfalto e pisaram as folhas caídas na umidade da floresta, percebi que havia alguma coisa incômoda no contato da mão dele com o meu braço. Sem mexer a cabeça, olhei para o lado e vi que ele usava luvas. Nos segundos seguintes, ou nos minutos, já não sei, eu só conseguia olhar as luvas. Os galhos arranhando o meu corpo, a voz dele, o sol desaparecendo entre as árvores, as ameaças, o barulho dos passos na mata, tudo se diluindo e perdendo a forma original, eu só via as luvas”, recorda a narradora.

“Preciso me esforçar, preciso me lembrar de tudo, só as luvas não bastam, mas mesmo agora, com exatidão, só vejo as luvas. O resto, apenas imagens borradas.”

Essas lembranças são permeadas por cenas sobre os desdobramentos do crime. Rotineiras idas da personagem à delegacia, a visita de investigadores a sua casa e o costumeiro retrato falado. Movimentos sempre muito dolorosos para Júlia.

Além disso, há um contraste com o clima de festa que vive o Rio de Janeiro, pois a história se passa em 2014, dois anos antes de a cidade sediar os Jogos Olímpicos de 2016, evento em que a própria Júlia estava envolvida profissionalmente.

O mirante Vista Chinesa, localizado no bairro Alto da Boa Vista, dentro da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Feminicídio Brasil afora

A violência esteve presente em alguns dos romances mais celebrados de Patrícia Melo. Em O matador, a violência transforma um simples vendedor de carros em O homem do ano, título do filme feito a partir do romance, que tem roteiro de Rubem Fonseca.

Em Mulheres empilhadas, livro de 2019 publicado pela Leya, os homens continuam com sua selvageria assassina, mas o alvo agora são as mulheres, preferencialmente esposas, namoradas, amantes…

Na trama, uma jovem advogada paulistana, tentando fazer as pazes com seu próprio passado, larga tudo e vai ao Acre acompanhar um mutirão de julgamentos de casos de mulheres assassinadas na maioria das vezes por homens conhecidos — pais, tios, avôs, maridos, namorados, ex-maridos.

O livro começa de uma maneira muito singular, dando poucas pistas dos caminhos que a narrativa vai tomar. Em diálogos inteligentes, Patrícia mistura referências eruditas a comentários cortantes.

“Você não imagina que um cara como este, que estuda Wittgenstein e pratica ioga, vai acabar metendo a mão na sua cara, no banheiro de uma festa de fim de ano de advogados. Mas as estatísticas mostram que isso é comum. E que muitos não se contentam apenas com o tabefe. Preferem mesmo é matar.”

Enquanto vê passarem diante dos seus olhos os mais diversos casos de violência contra mulheres, a protagonista descobre um país onde a impunidade se impõe quase como uma lei. Intercalada à narrativa principal, precisa e realista, Patrícia constrói capítulos oníricos, inspirados na lenda das icamiabas, tribo de guerreiras amazônicas que lutam contra os homens opressores.

Patrícia Melo, autora de Mulheres empilhadas.

Sonho e realidade

Nesse mundo paralelo, a advogada e as icamiabas formam uma sociedade de mulheres que perseguem, julgam e matam os criminosos que escapam da justiça na vida real. Guiada por rituais ancestrais dos povos indígenas e chocada com a violência ao seu redor, a personagem mistura presente e passado, realidade e pesadelo, razão e delírio.

“A coisa não acaba nunca. É como enxugar o chão com a torneira aberta. Sai uma mulher miserável, entra outra. Meu trabalho é basicamente lidar com uma fila interminável de mulheres ferradas — disse. No intervalo dos julgamentos, elas vêm falar comigo. Estão cheias de culpa. Muitas ainda amam os homens que denunciaram. Querem retirar a denúncia, querem acabar com o processo, mas a lei não permite”, diz a protagonista sobre os julgamentos que acompanha.

Há, ao fundo da narrativa, uma busca pessoal: a mãe da protagonista foi assassinada pelo marido. A filha vendo o pai limpar o sangue da mãe é uma das cenas mais fortes do livro.

Conexão

É possível fazer vários paralelos entre Vista chinesa e Mulheres empilhadas: a busca por justiça, a sensação de impunidade que transborda dos relatos das vítimas e as marcas incuráveis que esse tipo de violência causa nas mulheres e em seus parentes. Mas, talvez o mais óbvio e também o mais importante elo dessas duas ficções, é escancarar um assunto tão sério, mas que muitas vezes entra na conta do tabu e lá fica esquecido, silenciado.

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Vista chinesa
Tatiana Salem Levy
Todavia
112 págs.

Mulheres empilhadas
Patrícia Melo
Leya
240 págs.