A eterna vitalidade das biografias

Tão antiga quanto a própria literatura, a biografia é um gênero que nunca sai de moda. Nas listas de mais vendidos, sempre aparecem bem colocadas. Trata-se de um tipo de livro realmente popular. E os leitores brasileiros não têm do que reclamar: há opções sobre as mais diferentes personalidades, de políticos a artistas, de esportistas conhecidos a figuras quase anônimas. Ainda assim, há uma infinidade de assuntos e personalidades a se explorar.

Nas últimas décadas, assim como o mercado editorial brasileiro, nossas biografias também ficaram mais “profissionais”. Em parte, isso deu por uma “debandada” de repórteres e editores experientes que migraram das redações para os livros biográficos. Profissionais com décadas de jornalismo que ajudaram a dar um salto de qualidade nos retratos sobre variadas personalidades.

Ruy Castro é um dos responsáveis por arejar o gênero no Brasil. Desde 1967 trabalhando como jornalista, com passagens pelos mais importantes veículos de imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, ele “largou” a redação no final dos anos 1980 (um precursor do home office, portanto) e a partir de 1990 lançou uma série de biografias e livros de reconstituição histórica que se tornaram referências para leitores e outros biógrafos.

Entre os livros mais aclamados dessa “primeira fase” de Ruy Castro como biógrafo, destacam-se Chega de saudade: A história e as histórias da Bossa Nova (1990) e O anjo pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues (1992).

Para Ruy, a biografia persiste como um gênero de muitos leitores porque “ela atende a uma necessidade das pessoas de conhecer os bastidores da vida real”, diz. “Não é um simples voyeurismo, mas de entender mesmo o mundo em que vivemos, através de seus líderes e pessoas influentes. Uma boa biografia deve também ajudar o leitor a se entender melhor.”

Ruy Castro: “Uma boa biografia deve também ajudar o leitor a se entender melhor”.

Grandes personagens

Depois de três décadas cobrindo a cena musical, brasileira e estrangeira, para veículos paulistas, como o jornal O Estado de S. Paulo, Jotabê Medeiros também migrou para as biografias. De 2017 até hoje, lançou três livros sobre ícones da música brasileira: Belchior, Raul Seixas e Roberto Carlos.

Personagens muito populares, ótimos para se fazer o que Jotabê chama de “recorte histórico que possibilita examinar o todo a partir do particular”. “A biografia pode conter um exame historiográfico de uma época a partir da narrativa sobre a vida de um indivíduo”, diz sobre o sucesso do gênero.

“Muitos leitores percebem a riqueza dessa abordagem, que é basicamente a mesma do romance, mas com as unhas fincadas nas regras fundamentais do jornalismo — um desafio para quem escreve, que é o de encontrar um ritmo que não seja excessivamente técnico ou demasiadamente realista.”

A explicação do autor do recém-lançado Roberto Carlos: Por isso essa voz tamanha explica a gênese da biografia. O jornalismo e suas técnicas é que dão o tom e acabam sendo essenciais para o resultado — satisfatório ou não — de um livro.

Pesquisa minuciosa

Quanto mais os preceitos do bom jornalismo — apuração de diversas fontes para um mesmo assunto e pesquisa minuciosa — forem respeitados, maior é chance de se contar uma história sem pontas soltas e que dê ao leitor uma visão macro do personagem e do período em que viveu.

“Para mim, quanto mais difícil uma biografia, mais prazerosa de fazer”, diz Ruy Castro. “E não me refiro só à escrita propriamente dita, mas à apuração das informações. E sou eu que a torno mais difícil — porque, a cada uma, tento ouvir mais fontes e mais vezes cada fonte.”

Por isso, explica o biógrafo, ele levou dois anos para fazer O anjo pornográfico, três para escrever Estrela solitária (sobre Garrincha) e cinco para publicar Carmen (sobre Carmen Miranda). “O mesmo aconteceu com os livros de reconstituição histórica: levei dois anos para fazer Chega de saudade e Ela é carioca, três para A noite do meu bem e quatro para Metrópole à beira-mar. Então minha favorita é sempre a última de cada gênero.”

Jotabê, ao falar de seus livros, diz que “quase tudo que tem lá é jornalismo”. Mas o desafio é justamente se “despir desse hábito”. “Trocar o declaratório pela construção literária, tirar o manto da falsa objetividade, perder um pouco a vergonha de colocar a própria experiência a serviço da narrativa.”

Jotabê Medeiros: “O desafio é trocar o declaratório pela construção literária, tirar o manto da falsa objetividade, perder um pouco a vergonha de colocar a própria experiência a serviço da narrativa”.

Os segredos da boa biografia

Antes de se tornar biógrafo, Ruy Castro era leitor de biografias. E uma das coisas que lhe incomodavam, era que alguns autores ultrapassavam a linha entre a reconstituição histórica e a ficção.

Ou sejam, muitos autores tentam descrever o que se passa na cabeça do personagem em determinado momento, ou narram uma cena em detalhes que ninguém podia ter presenciado, reproduzindo diálogos que ninguém escutou. “Eu e meu amigo João Máximo, futuro biógrafo de Noel Rosa, já falávamos sobre isso em 1975, quando nenhum de nós imaginava que um dia se tornaria biógrafo”, relembra Ruy. “O que não cabe numa biografia é ficção. Ou o biógrafo tem o fato ou não escreve.”

Muito comum no mercado anglo-saxão, as chamadas “autobiografias” chegaram ao Brasil e tomaram conta das listas de mais vendidos nos últimos anos. Virou um filão lucrativo porque, diferente de uma biografia escrita por Ruy Castro, Lira Neto (Getúlio) ou Fernando Morais (Chatô), autores que costumam trabalhar durante vários anos em um livro, esse tipo de relato é uma espécie de fast-food do mercado editorial. Muitas vezes é escrito “a toque de caixa” e com a ajuda de um ghost-writer.

Um exemplo bastante recente são as memórias de Barack Obama, best-seller imediato, antes mesmo de ser publicado em novembro de 2020. Uma terra prometida foi publicado simultaneamente em 25 idiomas, inclusive em português. Dada a urgência da publicação, o livro foi traduzido a oito mãos, por Berilo Vargas, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann e Jorio Dauster. A obra do ex-presidente, no Brasil, só fica atrás de Minha história, livro de sua esposa, a ex-primeira-dama Michelle Obama, que é a líder de vendas no segmento, segundo a lista da consultoria Nielsen, que apura números do mercado editorial brasileiro.

Cheiro de maquiagem

Para Ruy Castro, “toda autobiografia cheira a maquiagem”. “‘O sujeito se olha no espelho e se vê num vitral’, como dizia o Nelson Rodrigues. Não se pode acreditar nela.” Além disso, para Ruy, o próprio nome “autobiografia” está errado. “Se o ‘autobiógrafo’ equivale ao biógrafo de si mesmo, ele deveria usar os recursos que se exige do biógrafo, um deles o de ouvir 200 fontes e dar várias voltas ao redor do personagem.

Mas o autobiógrafo ouve apenas a si mesmo, à sua própria memória, e só ouve o que quer. A memória é seletiva, ninguém é um canalha para si mesmo”, diz. E completa: “O nome certo, portanto, não é ‘autobiografia’, mas ‘memória’. A qual um dia poderá servir de subsídio para uma biografia de verdade do sujeito, mas não mais do que isso”.

Jotabê Medeiros lançou a biografia de Belchior “a quente”, em 2017, pouco depois da morte do artista, que anos antes havia se tornado um enigma da música brasileira ao largar o show business para se tornar um andarilho latino-americano. Foi “um pulo no escuro”, nas palavras do autor, já que ele não tinha editora quando começou o projeto.

Agora, depois de retratar três figuras centrais para a música brasileira, ele não está trabalhando em nenhum projeto (sua ideia é plantar aspargos no inverno), mas diz que há centenas de personagens esperando para serem biografados, “alguns mais suculentos que outros”.

“Acredito também que vivemos uma certa renascença no gênero. A descoberta de que podemos resgatar histórias ainda não contadas por conta da interdição judicial que reinou algum tempo”, diz sobre a liberação de biografias “não autorizadas” pelo Superior Tribunal Federal (STF) em 2015 — um capítulo à parte no inesgotável mundo das biografias.