A escrita como processo de autoconhecimento

Para falar sobre o crescimento e amadurecimento de seus personagens, as autoras americanas Jenna Evans Welch e Tracy Deonn falaram sobre os próprios processos de amadurecimento como pessoas e como autoras. Embora com motivações e histórias de vida bem diferentes, Jenna e Tracy têm em comum o gosto por escrever sobre e para adolescentes. Elas acreditam que essa é a fase da vida em que se percebe que temos escolhas, que é possível construir o próprio futuro com muitas possibilidades.

Autora da coleção Amor (Intrínseca), Jenna começou a escrever o que gostaria de ler, pois não encontrava nos livros infantis ou juvenis aquilo que procurava. Filha de um escritor – o que muitas vezes aumentou sua insegurança, ela se mudou com a família ainda muito nova para a Itália. A educação era muito restrita e religiosa, e isso também serviu de bloqueio para encontrar o seu próprio tom na escrita. Durante esse período, ela conheceu pessoas cujas vidas tão peculiares despertaram nela o desejo de contar aquelas histórias, como a amiga que se exercitava dentro de um cemitério.

Neste ano, Tracy lançou no Brasil, “Lendários” (Intrínseca), uma releitura do Rei Arthur sob a perspectiva de uma adolescente com muitos questionamentos. A personagem central, Bree, traz muito da própria autora em sua formação. Filha única de mãe solo, Tracy ficou órfã ainda na adolescência. Durante o tempo em que viveram juntas, a leitura de ficção científica era uma das coisas que mais gostavam de fazer juntas.

“Eu me inspirei em mim mesma para escrever a Bree, que também perdeu a mãe. O desejo de descobrir o por que das coisas é a linha central do meu livro. Quando não se tem acesso aos seus antepassados, como é muito comum aos descendentes de escravizados, ficam muitas perguntas sem respostas. Mas eu quero levar meus leitores, especialmente meninas e meninos negros, e todos que de certa forma são marginalizados, a perceberem que têm mais poder do que imaginam. Quero que eles se reconheçam nos meus personagens.”, declarou

Ambas autoras se reconhecem nas suas protagonistas, embora concordem que as personagens são mais ousadas, corajosas e têm mais poder de ação que elas mesmas. Também para as duas, ouvir a própria voz, confiar nos próprios instintos foi fundamental para seguirem na profissão. Assim, o amadurecimento de suas personagens caminha com o amadurecimento delas próprias.

“Quando eu permiti que a minha voz vazasse para as páginas, foi aí que eu passei a ouvir feedbacks mais positivos para o meu trabalho. Eu levei muitos anos entre o início da minha escrita e ter a coragem de expor meus textos. Eu acho que isso estruturalmente tem muito a ver com ser mulher, de ter dificuldade de se fazer ouvir. Eu pratico a minha autoescuta através da escrita, isso me ajudou a compreender quem eu sou.”, disse Jenna.

Para o processo de criação, elas têm métodos bem diferentes. Enquanto Tracy coloca uma playlist específica e acende um incenso, Jenna lê as cartas do tarô, um hábito que desenvolveu durante a pandemia. O conselho de Tracy para quem está começando é não desistir nos primeiros obstáculos.

“Eu sempre fui muito autocrítica. Pensava; ‘eu sou uma fraude!’. Síndrome do impostor mesmo. Se você gosta de escrever, escreva. Não existe uma quantidade certa de palavras ou padrões. Não negue a ideia de que você é um escritor ou escritora. Eu não escrevi criativamente por 10 anos e agora lancei um livro, que faz parte de uma trilogia”.