“A escravidão é o assunto mais importante da história do Brasil”

Há 133 anos, em 13 de maio de 1888, uma lei entrava em vigor com o objetivo de abolir, oficialmente, a escravidão no Brasil, condição que existia desde o século 16 no país. A “canetada” da Princesa Isabel (a Lei Áurea), como se esperava, não resolveu o problema.

A “abolição”, na prática, não ocorreu e ainda hoje vivemos “um legado da escravidão, mal resolvido no passado”, segundo Laurentino Gomes, autor do livro Escravidão, cujo primeiro volume de uma trilogia sobre o tema tem como foco principal a África e cobre um período de aproximadamente 250 anos.

O segundo livro, que chega às livrarias em 22 de junho, concentra-se no século 18, auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil.A série se encerra com a publicação do último tomo em 2022, que vai se concentrar no movimento abolicionista e no seu legado nos dias atuais.

Para Laurentino, a escravidão é o assunto “mais importante de toda a história do Brasil”, porque “nenhum outro tema é tão definidor para a construção da nossa identidade”.

Nesta entrevista exclusiva à Bienal 360º, ele fala sobre os desdobramentos desse fato histórico pouco debatido no país dada sua importância, o quê, para o escritor, é resultado “de um projeto nacional inconsciente, mas deliberado, com o objetivo de esquecer o assunto”.

Laurentino Gomes: “A escravidão continua ainda hoje a ser uma tragédia na história humana”.
Assista à participação de Laurentino Gomes na Bienal Rio 2019

Qual o nível de importância que o tema escravidão tem para que se entenda o Brasil atual?

A escravidão é o assunto mais importante de toda a história do Brasil. O trabalho de homens e mulheres escravizados deu o alicerce para a colonização portuguesa na América e a ocupação do imenso território. Também moldou a maneira como nos relacionamos uns com os outros ainda hoje. Neste início de século 21, temos uma sociedade rica do ponto de vista cultural, diversificada e multifacetada, mas também marcada por grande desigualdade social e manifestação quase diárias de preconceito racial. Isso, no meu entender, é ainda herança da exploração desumana, cruel e indigna do trabalho de milhões de pessoas forçadas a cruzar o Oceano Atlântico a bordo dos navios negreiros para viver como cativas no Brasil colônia. No final do século 17, o padre jesuíta Antônio Vieira cunhou uma frase famosa: “O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África”. No meu entender, é uma frase profética, que se torna cada vez mais verdadeira com o passar do tempo. E continua atual ainda hoje. O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu quase cinco milhões de cativos africanos, cerca de 40% do total de 12,5 milhões embarcados para as Américas. Como resultado, tem hoje a maior população negra do mundo, com exceção apenas da Nigéria. Foi também o país que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico negreiro e o último a abolir o cativeiro, pela Lei Áurea de 1888 — quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba. A escravidão foi a experiência mais determinante na história brasileira, com impacto profundo na cultura e no sistema político que deu origem ao país depois da independência. Nenhum outro tema é tão importante e tão definidor para a construção da nossa identidade.

Por que o Brasil foi o país que mais recebeu escravos no Ocidente? O que “facilitou” esse comércio aqui?

O Brasil nasceu escravizador e construiu seus alicerces plantados na escravidão. Todos os nossos grandes ciclos econômicos, do açúcar ainda no século 16 até o café, no século 19, foram sustentados pela exploração de mão de obra cativa indígena ou africana. Isso explica também por que demoramos também a acabar com o comércio de pessoas escravizadas, como se fossem mercadorias, entre nós. Discursos e artigos de jornais até às vésperas da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, previam que o Brasil não conseguiria sobreviver sem a exploração da mão de obra cativa. Dependente da escravidão, o Brasil resistiu enquanto pôde aos esforços abolicionistas. Em meados do século 19, a situação chegou a tal ponto que a Inglaterra, maior potência econômica e militar do planeta e cuja opinião pública exigia a imediata abolição do tráfico negreiro, passou a dedicar ao Brasil tratamento equivalente ao reservado aos estados barbarescos do norte da África envolvidos com a pirataria. Sob a mira dos canhões britânicos, navios negreiros eram aprisionados a caminho do litoral brasileiro e submetidos a cortes de justiça inglesas, que geralmente confiscavam as embarcações e devolviam suas cargas humanas ao litoral africano. Nada disso parecia amedrontar os traficantes. A primeira lei brasileira de combate ao comércio negreiro, aprovada em 1831 por pressão do governo britânico, nunca pegou. Era, como se dizia na época, “uma lei para inglês ver”. Mesmo oficialmente proibido no país e condenado por tratados internacionais, o tráfico continuou de forma intensa e sob as vistas grossas das autoridades. Calcula-se que entre 1840 e 1850, ano da chamada Lei Euzébio de Queiroz (que finalmente pôs fim ao tráfico) entraram no Brasil, em média, de 30 a 40 mil escravos africanos por ano. O tráfico de escravos era um negócio gigantesco, que movimentava centenas de navios e milhares de pessoas dos dois lados do Atlântico. Incluía agentes na costa da África, exportadores, armadores, transportadores, seguradores, importadores, atacadistas que revendiam no Rio para centenas de pequenos traficantes regionais, que, por sua vez, se encarregavam de redistribuir as mercadorias para as cidades, fazendas, minas do interior do país. Em 1812, metade dos 30 maiores comerciantes do Rio de Janeiro se constituía de traficantes de escravos.

Qual é o peso da escravidão no desequilíbrio das relações sociais e econômicas entre os brasileiros? É um fato que ainda reverbera?

Ao contrário do que se imagina, a escravidão não é um assunto acabado, bem resolvido e congelado no passado. Ainda está vivo entre nós, como se pode ver nos discursos de campanhas eleitorais e nas discussões que aparecem diariamente nas redes sociais. O preconceito é uma das marcas das nossas relações sociais no Brasil, embora sempre procuremos disfarçá-lo construindo mitos a respeito de nós mesmos. Um desses mitos diz que somos uma “democracia racial” e que a escravidão entre nós foi mais benévola, patriarcal e tolerante do que em outros territórios da América. Tudo isso é ilusório e desmentido pelas estatísticas, que mostram um fosso enorme de desigualdade entre negros e brancos no país em todos os itens analisados. Os descendentes de africanos ganham menos, moram em lugares mais insalubres, estão mais expostos aos efeitos da violência e da criminalidade e não têm oportunidades em todas as áreas, incluindo emprego, saúde, educação, segurança, saneamento, moradia e acesso aos postos da administração pública. Um homem negro no Brasil tem oito vezes mais chances de morrer vítima de homicídio do que um homem branco. Esse é um legado da escravidão, mal resolvido no passado e que ainda hoje tentamos negar. Portanto, tudo o que fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com as nossas raízes africanas e a forma como nos relacionamos com elas.

Laurentino Gomes: “Ao contrário do que se imagina, a escravidão não é um assunto acabado, bem resolvido e congelado no passado”.

No Brasil o assunto “escravidão” parece não “chocar” as pessoas como deveria. Você tem essa percepção? Por que isso acontece?

Acho que, oculto sob esse aparente desinteresse, existe um projeto nacional de esquecimento. Até hoje não temos no Brasil um grande museu nacional dedicado ao tema. Museus, como se sabe, não são apenas lugares de passeio e entretenimento. São locais de estudo e reflexão. Não ter um museu com esse perfil é, portanto, parte desse projeto nacional de esquecimento. Isso não aconteceu por acaso. É resultado de um projeto nacional inconsciente, mas deliberado, com o objetivo de esquecer o assunto. Até há alguns anos, tornou-se ideia comum de que os documentos da escravidão teriam sido destruídos e malconservados, o que torna o estudo do tema difícil, quando não impossível. Isso é verdade apenas em parte. De fato, parte da documentação histórica, relacionada aos registros de compra e venda de escravos na antiga Alfândega do Rio de Janeiro, foi destruída por ordem de Rui Barbosa, então ministro da Fazenda, logo depois da Proclamação da República. Com essa medida, os republicanos queriam, segundo se diz na época, “apagar uma mancha” na história brasileira, o que, obviamente, foi inútil porque a “mancha” nunca se apagou. Mas, apesar disso, restaram inúmeras outras fontes preciosas, relativamente intactas e pouco exploradas. Isso inclui inquéritos policiais e processos na justiça envolvendo os escravos e seus senhores, testamentos e inventários pós-morte, certidões de batismo, casamento e óbito, em anúncios de fuga ou de compra e venda de cativos registrados nos jornais da época ou em documentação cartorial. Existem também depoimentos de viajantes que visitaram o Brasil na época e deixaram preciosos relatos a respeito da escravidão. Tudo isso tem ajudado os historiadores a reconstruir nos mínimos detalhes essa grande história brasileira de dor e sofrimento. Rediscutir nossa identidade nacional, o que inclui um reconhecimento da importância e do legado da escravidão, é um dos nossos desafios mais urgentes.

Olhando para o outro lado da escravidão, o econômico, países que utilizaram essa mão de obra, hoje são considerados “desenvolvidos”. A riqueza deles e a excelência em várias áreas do conhecimento derivam também da pilhagem que fizeram nos países que eram suas colônias?

A escravidão esteve na base da prosperidade de todos os grandes reinos e impérios da história. Existiu em todas as grandes civilizações. China, Índia, Egito Antigo, os impérios persa, romano e otomano, todos eles tiraram sua riqueza na exploração de pessoas escravizadas. O mesmo princípio vale para os países e nações da história moderna. A riqueza da Europa se forjou na escravidão. A importância da indústria britânica no tráfico negreiro pode ser medida pelos itens da carga de um único navio que deixou os portos da Inglaterra em 1787 rumo à África: peças de algodão e linho, lenços e tecidos de seda azuis e vermelhos, finos chapéus de veludo, armas, pólvora, balas e barras de chumbo, espadas, panelas e frigideiras de cobre, potes de ferro, outros utensílios de cozinha, taças e copos de vidros, contas, bijuterias e pedras preciosas, brincos e anéis de prata e ouro, papel, bebidas e tabaco, malas e arcas de couro, capas de chuva, bacias de alumínio, mercadorias diversas secas e molhadas. Eram todos produtos da revolução industrial inglesa, financiada com capital extraído do tráfico e da exploração de mão de obra escravizada na América. Muitas lideranças políticas e grandes empresários de hoje são herdeiros desse passado escravista.

A escravidão foi a maior tragédia da história da humanidade?

Infelizmente, esse verbo ainda não pode ser conjugado no passado. A escravidão continua ainda hoje a ser uma tragédia na história humana. A rigor, a escravidão parece fazer parte do código genético do ser humano. Ainda hoje, o regime escravista persiste no mundo sob formas de trabalho desumanas, indignas e inaceitáveis para os padrões éticos que julgávamos ter atingido neste início de século 21. A organização britânica Anti-Slavery International (mais antiga entidade de defesa dos direitos humanos, fundada em 1823 para combater o tráfico negreiro) afirma que existem atualmente mais escravos no mundo do que em qualquer período nos 350 anos de escravidão africana nas Américas. Seriam 40 milhões de pessoas vivendo hoje em condições de vida e trabalho análogas às da escravidão — ou seja, quatro vezes o total de cativos traficados no Atlântico até meados do século 19. Ainda segundo a Anti-Slavery Internacional, a cada ano cerca de 800 mil pessoas são traficadas internacionalmente ou mantidas sob alguma forma de cativeiro, impossibilitadas de retornar livremente e por seus próprios meios aos locais de origem. E, lamentavelmente, o nosso Brasil aparece sempre com destaque nesta lista suja.

Laurentino Gomes: “Havia, e existe ainda hoje entre nós uma ideologia racista, usada no período colonial para justificar a escravização dos africanos”.

Havia uma justificativa “plausível” para a escravidão e o comércio? Como isso era justificado na sociedade da época, pelas várias esferas da sociedade, como a igreja e a política?

Havia, e existe ainda hoje entre nós uma ideologia racista, usada no período colonial para justificar a escravização dos africanos. Na época, dizia-se que os negros eram inferiores, bárbaros, selvagens, praticantes de religiões demoníacas. Portanto, a escravidão seria uma espécie de redenção para eles, a chance de se incorporar à civilização católica e supostamente mais avançada dos portugueses nos trópicos. Essa ideologia permanece ainda hoje oculta no Brasil nas formas preconceituosas de relacionamentos entre brancos e negros. Muitos brasileiros julgam que os negros, pardos e mestiços são inferiores e não merecem as mesmas oportunidades que o país oferece aos demais grupos da população descendente de europeus. Isso faz com que, por exemplo, nas 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência sejam ocupados por afrodescendentes. Os brancos são também a esmagadora maioria em profissões qualificadas, como engenheiros (90%), pilotos de aeronaves (88%), professor de medicina (89%), veterinários (83%) e advogados (79%). No meu entender, só a persistência de uma ideologia racista, que recusa oportunidades a todos os brasileiros, independentemente da cor a pele, explica essas diferenças. Ou seja, o verdadeiro racismo não se expressa apenas com palavras e atitudes ofensivas, que a lei proíbe, mas na recusa em dar oportunidades às pessoas negras ou afrodescendentes de se realizarem plenamente como seres humanos. Esse é o famoso racismo estrutural, enfronhado na nossa maneira de ser, de agir e de pensar.

O estado alemão, pelo menos “oficialmente”, parece se envergonhar do Holocausto. Os países europeus que escravizaram africanos e os enviaram às Américas não parecem fazer um mea-culpa. Por quê?

A falta de reconhecimento do passado escravista e, por consequência, de um mea-culpa por parte dos países e povos escravizadores é uma das razões pela persistência do racismo no mundo. Reconhecer e pedir perdão pelos erros antigos é um primeiro passo fundamental para a construção de um futuro de maior respeito e entendimento entre as pessoas. É preciso lembrar que a escravidão não foi apenas um empreendimento econômico e mercantilista. Foi também o resultado de um sistema de poder pelo qual um grupo de seres humanos se julgou na prerrogativa de comprar, vender, marcar a ferro quente, espancar outros seres humanos, enquanto explorava sua capacidade de trabalho. Esse sistema persiste nesse mundo de hoje, marcado pela continuidade de inúmeras formas de preconceito, contra imigrantes, refugiados, estrangeiros, pobres, homossexuais, entre outros grupos. Enquanto não houver esse reconhecimento e esse mea-culpa, o problema não vai embora. Ao contrário, continuará a nos atormentar, como acontece hoje em diversas regiões do planeta.

A escola brasileira, o ensino público e privado, dá o devido peso ao assunto? O ensino sobre o período da escravidão é satisfatório?

Até muito recentemente, a história africana e da escravidão negra no Atlântico era tratada como tema secundário, quase casual, nos livros didáticos e da historiografia oficial. Isso não aconteceu por acaso. É resultado do propósito de esquecimento que citei na resposta anterior. Alguns dos grandes abolicionistas do século 19, como Joaquim Nabuco e André Rebouças, diziam que não bastava acabar com a escravidão. Era preciso também enfrentar o seu legado, dando terra, trabalho, educação e oportunidades aos ex-cativos e seus descendentes. Isso o Brasil jamais fez. O projeto de abandono e esquecimento do assunto incluiu também a nossa história negra e africana, relegada a um segundo plano nos livros didáticos. Felizmente, isso está mudando. Hoje, já existe até uma lei que obriga o ensino desse tema em sala de aula.

Hoje há uma discussão sobre “o lugar da fala”. Você pensou nesse tipo de questão antes de iniciar seu projeto? Se preparou para críticas, já que é um homem branco e bem-sucedido?

Trato dessa questão logo na introdução do primeiro volume da trilogia que estou escrevendo sobre o tema. Acho que, na história da escravidão, existem os olhares negros, os olhares brancos e os olhares atentos. Eu me esforço para ser parte deste terceiro grupo, mas caberá aos leitores julgarem se fui bem-sucedido nesse desafio. Também acredito que a riqueza da disciplina de História está na possibilidade de múltiplas narrativas, leituras e interpretações. O meu é um entre muitos outros possíveis olhares sobre o tema. Ao mesmo tempo, preciso reconhecer que minhas raízes e referências culturais de certa forma condicionam e limitam o meu olhar. Como repórter e pesquisador, posso e devo observar e ouvir os diferentes olhares e vozes, admitindo, porém, que seria indevido ou falso de minha parte tentar, por exemplo, expressar na sua totalidade a experiência de dor e sofrimento do “olhar negro”, pela qual nunca passei. Também acredito que a escravidão é, ou deveria ser, assunto com o qual todos nós, brasileiros, deveríamos nos preocupar. Todos nós que estamos vivos hoje somos descendentes de escravos ou senhores de escravos. Portanto, escrever sobre a escravidão e a história negra do Brasil é, para mim, uma responsabilidade da qual não posso nem devo fugir, sob pena de pecar pela omissão ou pelo autoengano.

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Quem é Laurentino Gomes

Sete vezes ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura, um dos mais importantes do Brasil, é autor dos livros 1808, 1822, 1889 e Escravidão, além de O caminho do peregrino, em coautoria com Osmar Ludovico da Silva, obras que venderam até agora mais de três milhões de exemplares e foram editadas no Brasil, Portugal, Estados Unidos e China. Seu primeiro livro também foi eleito o Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação pela Universidade de São Paulo, é membro titular da Academia Paranaense de Letras.

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Escravidão — Volume 1
Laurentino Gomes
Globo Livros
504 págs.

1808
Laurentino Gomes
Globo Livros
384 páginas.

O caminho do peregrino
Laurentino Gomes e Osmar Ludovico
Globo Livros
200 págs.