A enigmática Elena Ferrante está de aniversário?

Hoje, 5 de abril, supostamente é o aniversário de 78 anos de Elena Ferrante, maior sucesso editorial desde que J. K. Rowling e seu bruxo Harry Potter, há 25 anos, entraram em cena — os livros da italiana já venderam mais de 30 milhões de exemplares. “Supostamente” porque não se tem certeza de quase nada em relação à escritora/escritor que se esconde atrás do pseudônimo.

A data se refere ao dia de nascimento de Anita Raja (1943), maior “suspeita” de ser a face da autora sem rosto. Anita é tradutora, vive em Roma e é casada com o romancista Domenico Starnone, que para muitos também pode ter parte nos sucessos de Ferrante. Leitores mais exigentes, inclusive, dão conta de que Starnone é muito melhor escritor que Ferrante…

Na história literária, muitos autores usaram pseudônimo. Mas todos eles tinham identidades conhecidas, como o inglês John Le Carré, morto em dezembro do ano passado, que se chamava David Cornwell e tinha um histórico como agente do MI6, o serviço secreto britânico.

Elena Ferrante aborda temas como feminilidade, desejo e as ambivalências na amizade entre mulheres. Ilustração: Thapcom

Elena, às vezes, aparece

O caso de Ferrante também é diferente da reclusão praticada por autores como J. D. Salinger e Thomas Pynchon, que sempre evitaram a imprensa e nunca se disponibilizaram a dar entrevistas sobre suas obras.

A italiana não mostra o rosto, mas responde entrevistas e fala de seus livros e processo de criação, ainda que raramente. No ano passado, ela respondeu a diversas questões relacionadas ao seu mais recente livro, A vida mentirosa dos adultos, enviadas pelos tradutores de sua obra ao redor do mundo — incluindo o brasileiro Marcello Lino.

Talvez seu caso se pareça mais com o do grafiteiro britânico Banksy, que nunca revelou a verdadeira identidade, mas é um dos artistas mais celebrados do mundo. As suspeitas, nesse caso, recaem sobre Robert Del Naja, fundador do grupo de trip hop Massive Attack.

Trajetória começa em 1992

A escritora está no cenário literário há muitos anos, publicando sob pseudônimo desde 1992, quando lançou Um amor incômodo, mas foi só com a publicação da tetralogia napolitana que a busca pela pessoa por trás do nome se intensificou.

Lançados a partir de 2011, com A amiga genial, a série conta a história das amigas Rafaella e Elena (apelidadas de Lila e Lenu) ao longo de suas vidas. Ambientados na cidade italiana de Nápoles, os livros debatem temas que acabaram colados à obra de Ferrante, como feminilidade, desejo e as ambivalências na amizade entre mulheres. Os outros livros são, pela ordem de publicação: História do novo sobrenome, História de quem foge e quem fica e História da menina perdida.

Em uma entrevista de 2018 ao jornal francês Bibliobs, ela mesmo fala sobre a origem de seus livros de sucesso, ainda que de forma evasiva.

“Não sou capaz de dar uma resposta precisa”, diz. “A origem pode ter sido a morte de uma amiga, ou uma festa tumultuada de casamento… Ninguém sabe exatamente de onde vem uma história, ela é fruto de uma variedade de sugestões que, junto com outras de que sequer nos damos conta, estimulam nossa mente.”

Linguagem clara

Mas talvez o maior “trunfo” de Ferrante como criadora literária, esteja também na linguagem que escolheu. É uma escrita clara, que não exige muito esforço do leitor para que seja entendida. No entanto, mantém um nível bem acima da média dos costumeiros best-sellers. É o que muitos críticos chamaram de uma perfeita simbiose entre “entretenimento e literatura”.

Romances que além de milhares de leitores, também conquistaram fãs famosos, como Hillary Clinton, Nicole Kidman, Jane Campion, Zadie Smith e Jonathan Safran Foer.

No Brasil não é diferente. A italiana tem fãs espalhados por todo o país. A psicanalista Cauana Mestre conheceu a obra de Ferrante em 2018, “meio por acaso numa livraria”. Desde então, leu todos os livros da autora, incluindo o volume de ensaios e correspondências, Frantumaglia.

“O que me cativa é, sobretudo, a sinceridade poética, a habilidade de escrever sobre coisas ordinárias sem se preocupar com a leitura que o mundo pode fazer”, diz. “Elena Ferrante reduz seus filtros ao máximo e eu acho isso apaixonante.”

Em 2017, quando a “febre Ferrante” começava por aqui, a desenhista industrial Ligya Capriotti começou sua trajetória como leitora e fã da italiana. O terceiro livro da tetralogia, A história de quem foge e quem fica, é o preferido dela. “Me tocou muito pelo momento da vida em que eu o li. Lenu passa muito tempo desse livro duvidando de suas capacidades acadêmicas, enfrentando machismo, aprendendo a conciliar seu sucesso profissional com sua vida familiar, temas esses que ainda são muito atuais para mim.”

A tradutora Anita Raja é a maior suspeita de ser Elena Ferrante.

Anita é importante?

O nome de Anita Raja veio à tona depois que o jornalista italiano Claudio Gatti fez uma devassa nas contas da editora Edizione E/O e no imposto de renda da tradutora. O rastreamento deixou claro para o jornalista que compras de propriedades em Roma e na Toscana não seriam compatíveis com os ganhos de uma “tradutora freelancer”, como Anita se apresenta profissionalmente. E assim ele cravou que Elena Ferrante é Anita Raja.

Outra evidência, essa literária, seria o próprio Domenico Starnone, cujo apelido é Nino, como o personagem da saga de Ferrante (Nino Sarratore). Os envolvidos nunca se manifestaram. E o assunto segue sem uma definição.

Mas isso seria um “tempero” a mais, que ajudaria a literatura de Ferrante a se tornar ainda mais saborosa, ou não passa de um detalhe insignificante, importante apenas para alimentar pautas sensacionalistas e invasivas?

“Não diria que é sem importância”, diz a psicanalista Cauana. “Acho que isso ajuda a criar um terreno incógnito no imaginário coletivo. Considero muito corajoso, principalmente nos tempos atuais, em que a literatura pode vir acompanhada de rostos famosos e conhecidos e, por conta disso, vender muito. Apostar na autossuficiência da literatura é bem revolucionário.”

A estudante de Letras da USP Julia Salazar gosta da ideia de ler uma autora “desconhecida” e gosta mais ainda “da camada adicional de sentido que isso dá ao texto, principalmente tendo em vista o livro Frantumaglia”, diz, citando o volume em que a italiana fala abertamente de seu processo criativo e de suas influências. “Gosto de pensar ‘Elena Ferrante’ como uma outra personagem pertencente ao universo Ferrante”, completa Julia, que trabalha como revisora.

Depois da obra-prima

Em novembro de 2019 Ferrante lançou um novo livro. A vida mentirosa dos adultos foi publicado cinco anos após o final da tetralogia que arrebatou leitores no mundo todo. E a expectativa era grande.

O romance é contado sob o ponto de vista de Giovanna, uma mulher de 40 anos, que narra, em primeira pessoa, sua história a partir da relação com os pais, dois professores com diferentes origens sociais. O pano de fundo continua sendo Vomero, um dos bairros da parte alta de Nápoles.

O livro começa de um jeito cômico e triste ao mesmo tempo. A protagonista, aos 12 anos, ouve uma conversa de seus pais e fica sabendo que o pai a acha feia e que ela está ficando como Vittoria, uma tia considerada desagradável.

Apesar de manter intacta a linguagem que marcou os romances de sucesso, o livro recebeu críticas menos positivas e dividiu os leitores.

“Esperava um pouco mais do livro — e aí entra a expectativa e comparação geradas por causa da tetralogia —, mas foi uma das leituras mais rápidas que fiz no ano passado. A forma como ela conta a história é incrível, isso não muda”, opina Julia Salazar. Cauana diz que ficou muito “tocada pelo livro”, e que, como sempre, “Ferrante agarrou um tema mundano — a adolescência — e falou sobre ele sem nenhuma piedade”.

Cena de A amiga genial, série da HBO. Foto: Eduardo Castaldo

Adaptações para séries

Em 2018 a saga napolitana chegou à televisão, em uma produção da HBO e da Rai. Foi a primeira adaptação da tetralogia, que está prevista para se encerrar em quatro temporadas, uma por livro, com um total de 32 capítulos. Duas já foram ao ar, dirigidas por Alice Rohrwacher e Saverio Costanzo.

Cauana — “tomei o cuidado de assisti-la vigiando minhas expectativas, não cabe comparação” — e Ligya — “achei uma adaptação excelente” — viram as duas temporadas e gostaram do resultado. Julia viu apenas dois episódios. “A obra da Elena é algo que me remete a questões muito pessoais e nem sempre é ‘fácil’ encará-la”, revela a estudante.

E logo os fãs da italiana poderão ver mais uma obra de Ferrante na TV. A vida mentirosa dos adultos vai virar série da Netflix. Ainda sem previsão de estreia, a produção ficará a cargo da Fandango Production, mesma produtora responsável por A amiga genial, série da HBO.

O melhor de Ferrante, segundo as fãs

“Comecei lendo a tetralogia napolitana e o que mais me chamou atenção, para além da construção da relação de amizade e interdependência, foi o destaque para as relações de violência no bairro periférico. Por ser também de periferia, as descrições de como o bairro impactou a formação de ambas as protagonistas, de diferentes formas, me marcou muito. Acho que é o meu aspecto preferido de toda a obra dela.”
Julia Salazar, estudante de Letras da USP.

“O que me cativa é, sobretudo, a sinceridade poética, a habilidade de escrever sobre coisas ordinárias sem se preocupar com a leitura que o mundo pode fazer. Elena Ferrante reduz seus filtros ao máximo e eu acho isso apaixonante.”
Cauana Mestre, psicanalista, mestranda em Estudos Literários pela UFPR.

“O que mais me cativa é a maneira como ela é capaz de descrever os conflitos internos dos personagens, que são muito reais. Me sinto transportada na cultura, no espaço e no tempo quando leio algum livro dela, pois sou capaz de ver um reflexo de mim dentro dos personagens dela.”
Ligya Capriotti, desenhista industrial.