A construção do feminino para a desconstrução do machismo

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”. A frase da escritora e pensadora feminista proeminente Simone de Beauvoir foi o fio condutor do painel ‘A construção do feminino’ no início da tarde deste sábado (11.12) na XX Bienal do Livro Rio.  Com mediação da autora e professora Cristiane Costa, as autoras Ana Paula Araújo, Bruna Maia, Jaqueline Vargas e Luh Maza debateram sobre a imagem do feminino em uma sociedade que valoriza o machismo.

As convidadas refletiram sobre os mecanismos de manutenção de poder, preconceito, arquétipos e expectativas ligadas ao feminino, além da violência que surge do machismo estrutural.

“Nós mulheres quando somos mais agressivas para alcançarmos os nossos objetivos, as nossas metas, somos vistas como difíceis. Se eu fosse um homem, seria só ambicioso. Isso pesa para nós mulheres e são arquétipos que vêm sendo construídos há muitos anos”, disse Bruna Maia, acrescentando ter descoberto que características que ela sempre invejou nos homens, na verdade, a maioria deles não possui.

“Eu vejo que os homens em geral são muito mimados. Eles estão muito acostumados a terem uma mulher cuidando deles e eles não são tão autônomos e independentes quanto eu imaginava. Vejo muito mais mulheres com essas características. Então, tenho a esperança de que esses arquétipos estão sendo descontruídos”.

A primeira roteirista trans do Brasil, Luh Maza, contou como é libertador não esconder quem realmente é, mas, ao mesmo tempo, é perigoso, pois o fato de ser uma mulher trans a deixa ainda mais vulnerável que as outras mulheres. Afinal, o Brasil é um dos países que mais mata trans no mundo. “Não é nem um pouco fácil ser mulher trans aqui. Estamos o tempo todo vulnerável aos ataques. Essa sociedade acredita que pode direcionar as pessoas e se elas não seguem a direção que lhe é imposta devem ser anuladas. Cada mulher é uma. Eu tenho e todas nós temos o direito de ser quem queremos ser”, concluiu. 

Jaqueline Vargas – roteirista de Sessão de Terapia e autora do livro “Aquela que não é mãe” – destacou a pressão sobre as mulheres: “Há uma pressão muito grande do papel da mãe, como aquela figura materna divina. A mulher está sempre sendo cobrada de algum lado e se cobrando. Mas, enfim, estamos em um momento em que as mulheres estão avaliando o que elas realmente querem”.

A pressão sobre a mulher também ficou evidenciada na fala da jornalista e autora Ana Paula Araújo, que lançou, na pandemia, o livro “Abuso: A cultura do estupro no Brasil”. A obra é uma grande reportagem sobre como as vítimas tratam do medo e da vergonha pelo que passaram. “O fato de não falarmos sobre esse tema faz com que isso seja um tabu.  A mulher não tem liberdade para ser mulher. Há uma cobrança até da própria vítima de porque ela permitiu ou contribuiu para aquela violência que sofreu. A gente começa desde cedo a colocar medo na cabeça das mulheres, por isso resolvi falar sobre esse tema, para desconstruir o tabu do machismo, de que nosso corpo é propriedade do homem”, explicou a apresentadora da TV Globo, acrescentando que a educação e violência sexual deveriam ser debatidas nas escolas:  

“Falar sobre esse tema previne uma gravidez precoce, previne abusos. Claro que a família tem o papel de orientar a criança também, mas a escola não pode ficar de fora. A maioria dos abusos sofridos por crianças e adolescentes acontece dentro de casa”, concluiu Ana Paula.