A boa febre dos clubes de livros

A cena é prosaica, mas sedutora: você recebe todo mês uma surpresa, alguns brindes, embalados cuidadosamente numa pequena caixa. Ao abri-la, um mundo de histórias entra na sua casa pelas páginas de um livro. É com esta ideia de encantamento que os clubes de livros retornaram com muita força país afora. E há para todos os gostos e idades – o que não falta é um clube em busca de um leitor.

A iniciativa não é nova. Entre as décadas de 1970 e 1980, o Círculo do Livro chegou a vender 17 milhões de títulos aos seus “sócios”, como eram chamados os leitores. Era algo simples, a editora oferecia uma lista de livros por meio de sua revista e os sócios compravam, pelo menos, um título por mês, pagando uma mensalidade.

O Círculo perdeu fôlego nos anos 1990, mas a ideia de “clube do livro” renasceu com disposição há alguns anos e levou muita gente a adquirir ou retomar o hábito da leitura. Com a pandemia, a facilidade de receber livros em casa tem seduzido milhares leitores.

Os clubes, em geral, trabalham com uma ideia padrão. Oferecem kits que são enviados mensalmente para a casa do assinante mediante o pagamento de um “plano”. Alguns editam seus próprios livros, o que deixa o produto ainda mais exclusivo, e outros fazem parcerias com editoras.

Além disso, quase todos têm na figura do curador um de seus atrativos. Um autor consagrado ou especialista que vai escolher o livro que o assinante lerá. É a mesma lógica de outros clubes, como o de vinho, por exemplo. Alguém que já experimentou aquele produto e o indica. Brindes como chaveiros, marcadores de páginas e revistas também fazem parte do pacote, assim como os mais recentes aplicativos, em que o leitor tem mais interação com os produtos que consome.

Um dos cases mais famosos é a gaúcha TAG — Experiências Literárias, focada em literatura brasileira e estrangeira. O clube de livros fundado em 2014 chegou ao final de 2020 com 60 mil assinantes em todo o país, número que representa um crescimento de 23% em sua base de assinantes, e faturamento de R$ 43 milhões anuais.

TAG teve aumento de 23% e faturamento anual de R$ 43 milhões.

Parte do crescimento se deve a campanhas de incentivo à adesão criadas pela empresa, mas a curiosidade pelos clubes de assinatura fomentados pela pandemia também ajudou. “Notamos que muitas pessoas passaram a ter outra visão a respeito de clubes de assinatura quando permaneceram mais tempo em casa e decidiram experimentar. Esse movimento nos ajudou a crescer, pois ao longo do ano a leitura ganhou mais espaço na vida daqueles que estavam em quarentena”, diz Arthur Dambros, vice-presidente da empresa.

Para todos os gostos e idades

O sucesso dos clubes do livro fez o negócio se segmentar. Hoje o maior deles é focado em obras para o público infantojuvenil. O Leiturinha, que também surgiu em 2014, tem 175 mil assinantes. “Quando surgimos, não havia propostas parecidas com a nossa no mercado, era realmente uma oportunidade não só de negócio, mas de ser pioneira em um mercado que até hoje está passando por inúmeras transformações”, diz Leonardo de Paula, diretor-geral da Leiturinha.

Leiturinha: clube voltado às crianças conta com 175 mil assinantes.

Outro clube que representa bem essa segmentação é o Empiricus Books, espécie de “braço cultural” da empresa de investimentos de mesmo nome. Ali, os assinantes só recebem livros de economia e finanças. A ideia surgiu da percepção de que há um público leitor para esse segmento no país que não tinha à disposição uma curadoria adequada.

“Oferecemos livros inéditos ou com conteúdo essencial para a formação do investidor, com textos de fácil leitura, prazerosa, e conteúdos de primeira qualidade. Um dos maiores atrativos é seu preço acessível — cobramos essencialmente o valor do livro, sem custos adicionais”, diz Priscila Vieira, coordenadora da Empiricus Books.

Priscila Vieira, coordenadora do Empiricus Books, aposta no segmento de livros para investidores.

A curadoria que seduz

Certamente um dos aspectos que cativam os leitores dos clubes é a curadoria. Ler um texto indicado por alguém do ramo, ou consagrado, tem feito a diferença. Na TAG, escritores brasileiros e estrangeiros, como o romancista moçambicano Mia Couto e o professor de escrita criativa Luiz Antonio de Assis Brasil, costumam fazer as indicações. Na Empiricus, a seleção é feita pelo sócio-fundador da empresa, Rodolfo Amstalden,e outros analistas. E a Leiturinha tem um time com profissionais de várias áreas, como psicólogos, psicopedagogos, filósofos e jornalistas.

“Mesmo sendo um hábito que depende de isolamento e concentração, a leitura sai enriquecida pelo diálogo com outros leitores, e todo o processo é um antídoto para a solidão mais do que qualquer outro consumo artístico”, diz a agente literária Luciana Villas-Boas sobre o papel dos curadores. “É possível também que os sócios de clubes do livro sintam-se inseguros de seus repertórios, critérios e escolhas e precisamente valorizem a chancela que lhes é oferecida.”

Luciana Villas-Boas: editoras têm de apostar suas fichas em diversas estratégias.

Seja fazendo edições próprias ou parcerias com grandes editoras, o certo é que os clubes do livro estão movimentando o mercado editorial em um período de extrema instabilidade, em que o modelo tradicional de vendas, ancorado nas livrarias físicas, entrou em colapso por conta da pandemia da Covid-19.

“As editoras têm que explorar todas as novas possibilidades de canais de vendas”, diz Luciana, que foi editora-executiva da Record nos anos 2000. E é o que as editoras estão fazendo, várias delas viram nos clubes de leitura mais um canal para escoar sua produção e estreitar o relacionamento com o público. Intrínseca, Companhia das Letras e L&PM são três grandes casas que apostaram nesse nicho.

A Leiturinha, por exemplo, tem uma parceria com a editora Harper Collins, que lançou o selo Harper Kids. No acordo, obras já consagradas no mercado editorial internacional são publicadas pela Leiturinha com exclusividade. “Mas nosso mais novo projeto são os Originais Leiturinha, livros que são publicados e editados por nós, sem precisar da mediação de uma editora”, diz Leonardo de Paula.

A experiência do Círculo do Livro, que de certa maneira é o “pai” dos clubes atuais, terminou de forma melancólica no final dos anos 1990. Mas o que o futuro reserva a esse modelo que tem feito surgir leitores em todos os cantos do país? Para Luciana Villas-Boas, neste momento, a prudência é o melhor caminho. “Não sou futuróloga, nem recomendo essa profissão: a pandemia ensinou que se devem evitar grandes previsões, ainda mais de longo prazo.”