150 anos de Castro Alves: como o autor marcou seu nome na literatura com apenas um livro

O baiano Castro Alves (1847-1871), conhecido como “Poeta dos Escravos” devido aos seus versos em prol do abolicionismo, teve uma passagem meteórica pelas letras e pela vida. Morreu aos 24 anos de idade, há exatamente um século e meio, em decorrência de uma doença que tirou a vida de muitos artistas no século 19: a tuberculose.

O trabalho do poeta, patrono da Cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, é marcado por uma firme percepção crítica da sociedade de sua época — no que diz respeito à escravidão, principalmente. Além de ter tomado para si as dores de seus semelhantes, Castro Alves lidou ele mesmo com os infortúnios da doença desde os 17 anos, período em que escreveu os versos de “Mocidade e morte”.

“[Castro Alves] começou muito moço e muito moço terminou. Foi o mais belo espetáculo de juventude e de gênio que os céus da América presenciaram. (…) Vê no céu, ele brilha, é a mais poderosa das estrelas”, anota Jorge Amado em ABC de Castro Alves, um livro “destinado não aos literatos e aos ensaístas mas sim ao povo”.

Castro Alves, o “Poeta dos Escravos”.

Versos de Castro Alves

É provável que o poema mais conhecido do baiano seja “O navio negreiro”, cobrado recorrentemente em vestibulares do Brasil e de importante valor histórico. Na quinta parte do trabalho, por exemplo, lê-se:

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

No início e no decorrer desse poema, que faz parte do longo e inacabado conjunto Os escravos, Castro Alves detalha como seria a dura realidade dos homens negros sendo levados a um destino brutal. Entre o “tinir de ferros” e o “estalar de açoite”, “ri-se Satanás!”.

Já ao lidar com questões pessoais, como em “Mocidade e morte”, o poeta parece transitar entre o lamento pelo destino incontornável e uma ânsia por aproveitar com intensidade o tempo que lhe resta. Em determinado momento, anota: “Eu sinto em mim o borbulhar do gênio”, este que irá partir em breve, necessariamente, e não poderá mais aproveitar os bons momentos com a companheira dos sonhos. 

Jorge Amado, autor de ABC de Castro Alves.

Breve biografia

Filho do médico Antônio José Alves e de Clélia Brasília da Silva Castro, Castro Alves conheceu as perdas desde cedo. A mãe morreu quando ele tinha 12 anos. Não muito mais tarde, em 1866, perdeu o pai.

Dedicou-se à poesia desde criança, desenvolvendo uma paixão que parece ter nublado seu prazer pelos estudos formais. Foi aprovado na faculdade de Direito em 1864, depois de duas tentativas falhas, e deu mais atenção à produção de versos do que ao conteúdo acadêmico.

Logo após a morte de seu pai, aproximou-se da atriz portuguesa Eugênia Câmara, em um relacionamento que durou até o final de 1868. Apesar da desilusão amorosa, um bom acontecimento pairava sobre a vida do autor: Gonzaga, sua única peça de teatro, tinha sido encenada com sucesso. Mas Castro Alves não viveria muito mais tempo para colher os frutos de seus trabalhos.

Além de lidar com problemas pulmonares que o acompanharam desde o início da juventude, o poeta sofreu um acidente durante uma caçada e precisou amputar o pé esquerdo. A partir daí, com a saúde em declínio, buscou abrigo na casa de parentes na Bahia e lançou Espumas flutuantes, em novembro de 1870, o que seria seu primeiro e único trabalho publicado em vida.

Linha do tempo

• Nasce em Muritiba, na Bahia, em 14 de março de 1847

• Perde a mãe, Clélia Brasília da Silva Castro, aos 12 anos

• Muda-se para o Recife em 1862, onde ingressa na faculdade de Direito

• Perde o pai em 1866, mesmo ano em que se aproxima da atriz portuguesa Eugênia Câmara

• Em setembro de 1867, a peça Gonzaga é encenada com grande sucesso

• Em 1868, muda-se para São Paulo e estuda Direito na mesma turma de Rui Barbosa

• Em 1869, durante uma caçada, sofre um acidente e tem o pé esquerdo amputado

• Em novembro de 1870, vivendo novamente na Bahia, publica o livro Espumas flutuantes

• Morre em 6 de julho de 1871, em Salvador, aos 24 anos

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Melhores poemas — Castro Alves
Org.: Lêdo Ivo
Global
136 págs.

ABC de Castro Alves
Jorge Amado
Companhia das Letras
304 págs.

Castro Alves
Alberto da Costa e Silva
Companhia das Letras
224 págs.